Bom Sucesso: a telenovela literária

Quem disse que as telenovelas são inevitavelmente fúteis?

Nos anos 90, as telenovelas brasileiras faziam o serão dos portugueses. Muitas delas, baseadas em livros de esplêndidos autores – como Gabriela Cravo e Canela e Capitães da Areia – contavam  histórias bem criadas com o fulgor produtivo da Globo.

Depois, muitos anos mais tarde, veio a produção nacional. Com raros casos de interesse, como algumas telenovelas de Tozé Martinho, a maioria continha histórias vazias e desinteressantes que só serviam o público que busca a despreocupação. A culpa, maioritariamente, é dos autores. 

Lamentavelmente, a maioria dos guionistas nacionais preocupa-se mais em criar algo básico. As tramas são previsíveis, as personagens são planas e a história redundante. 

A primeira telenovela que me lembro de ver foi Felicidade, baseada nos contos de Aníbal Machado. Foi emitida em 1991. Entretanto, a diminuição da ligação entre os canais nacionais e a Globo fez-me perder o contacto com este mundo. A produção nacional, com as excepções já citadas, nunca foi capaz de me prender.

É então que, passados estes anos, já estando eu na era da Netflix com todo o meu afinco, tendo publicado alguns livros e tendo-me tornado ainda mais exigente em relação às histórias, Paulo Halm e Rosane Svartman criam uma história que é capaz de me resgatar desta abstinência.

Fazem-no de uma forma tão deliciosa que merece ser citada. 

Luiz Henrique Rios (director artístico), Rosane Svartman e Paulo Halm (autores).

Bom Sucesso é o nome da telenovela da Globo que terminou no dia 24 de Janeiro. Um exame médico trocado dá origem à história de uma humilde costureira de grupo de Carnaval e de um editor literário. Este pequeno pormenor final é aquele pretendo sublinhar.

Por trás das tramas de amor e ódio, encontros e desencontros, aventuras e desventuras, os autores conseguiram fazer serviço público de alta qualidade. Alberto Prado Monteiro, a personagem de António Fagundes, dono da Editora Prado Monteiro, vive a sua vida rodeado de livros. Cada momento da sua história merece ser eternizado com as palavras de um clássico que ora cita de cor ora lê para quem o ouve com deleite.

Afinal, não é só a futilidade que vende. A telenovela bateu recordes de audiências usando passagens de livros como Dom Quixote de La Mancha, poemas de Carlos Drummond de Andrade, Fernando Pessoa, entre muito outros. 

Não eram os livros considerados por muitos algo abandonado pelo grande público? Não eram relíquias enterradas no século passado, mortos pela era digital?

Não. Halm e Svartman, bem como todos os protagonistas da novela, provam-nos com qualidade e simplicidade que podemos aprender a degustar a leitura, a apreciar as palavras que nos consolam em momentos tristes, a festejar a vida com citações de alegria e a viver por entre a sabedoria que herdámos da Literatura. Com L maiúsculo.

No fim, já não era uma simples telenovela. Era uma oportunidade de sonhar com aqueles mundos que me encantam desde criança. O público que assistiu a esta telenovela ficou, com certeza, mais culto. Aprenderam nomes de escritores que não conheciam ou relembraram passagens antes lidas. 

Deste lado do Atlântico, por entre tops de vendas comprados e futilidades repartidas entre centenas de episódios, teremos um dia coragem para criar algo que desafie as estúpidas convicções dos media ou vamos ficar à espera de ficar de novo na cauda da cultura mundial, vivendo dos êxitos do antigamente, quando ainda éramos conquistadores?

Ainda bem que descobrimos o Brasil. Podemos um dia precisar de lá voltar para (re)aprender.

Fotos: Victor Pollak/Globo