O destruidor de rebanhos

Texto publicado originalmente no projecto Arcádia XXI a 21 de Março de 2008

Um dia acordamos e sentimos um impulso terrível. Uma sensação de dever incumprido, um aperto, uma força interior. Se não a seguirmos consome-nos. Se formos atrás dela corremos riscos enormes. Sim, é este o problema. O risco. Não há quem lide bem com ele e apenas só uma vez por outra se encontra alguém que saiba como contornar esse medo.

Se o risco não existisse não haveria heróis, os valentes seriam como qualquer outro; não existiria fantasia e os sonhos seriam fuligem pousada em mobiliário antigo. 

Tenho uma amiga que deixou de falar comigo durante um certo tempo. Pensei que a memória dela não fosse perfeita, como nenhuma é, e acabei por aceitar que era ocupada de mais para me falar. Certo dia, confessou porquê. Por entre problemas, tinha conhecido o homem da sua vida e vai casar e viver com ele fora do país. Desde o final do ano passado até agora, o seu sonho tornou-se o seu farol e, numa atitude que muitos tomariam como inconsciente, aceitou mudar a sua vida.

Embora esta história tenha um tom um tanto ou quanto semelhante aos livros de auto-ajuda tem uma diferença: é verdade. E é assim que todos devíamos ser. Implacáveis quanto àquilo que amamos. Recusarmo-nos a entrar na fila indiana, no rebanho, preferir o carrossel alucinante de uma escolha desmesuradamente recheada de novidade e risco. Abater o medo com uma espingarda de sorte e jogar connosco, confiando-nos a nós próprios. 

Abrirmos as asas não é difícil. Difícil é deixá-las bater por si só, como fazem os pássaros, desviando-nos de correntes adversas quase instintivamente e apoiando-nos em poços de ar quente para subir, poupando energia para as lufadas contrárias ou as tempestades de chuva.

É tão-somente ouvir o que vai dentro de nós. Quem nunca pôs um búzio na orelha? Hoje, o búzio somos nós. Ouvimos hoje o que o nosso búzio diz. Amanhã partimos.

Fernando Miguel Santos

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