Covid-19: um outro Mundo

Nunca imaginei uma situação assim. Digna de ficção, sem dúvida, mas ultrapassando todos os conceitos pré-adquiridos que temos, aquilo que damos como garantido e aquilo que, eventualmente, ignoramos enquanto benefícios reais nas nossas vidas.

Estava em formação no Hospital Universitário de Genebra quando a má notícia se abateu sobre nós. As projecções indicavam que a Suíça seria atingida pela pandemia de uma forma que não tínhamos podido antecipar. 

O mundo deu várias voltas na minha cabeça. Os planos estabelecidos para os próximos meses, a intenção de me aperfeiçoar enquanto profissional através de treino intensivo, as aulas, as simulações, tudo isso tinha sido cancelado. Necessitavam de todo o pessoal disponível para combater um inimigo silencioso, rápido e forte.

Voltamos todos a ser integrados nos nossos hospitais e nas nossas equipas. Estabeleceram-se planos de contingência, horários cujas planificações possíveis se aproximam da loucura e contratações apressadas de novos enfermeiros.

Um outro Mundo

Hoje, duas semanas depois, o meu serviço está completamente transfigurado. Como o Mundo. Todas as nossas camas estão ocupadas por doentes infectados com o Covid-19, intubados, a desenvolver ARDS (acute respiratory distress syndrome, ou seja, uma inflamação generalizada do pulmão consequente à infecção e à pneumonia bilateral associada) a uma velocidade estonteante. Alguns são obesos e temos de os posicionar em decúbito ventral, ou seja, de barriga para baixo. 

Cinco ou seis pessoas são solicitadas a fazer esse trabalho, mas a força nem sempre chega. Demorámos cerca de uma hora em todo o procedimento.

A ventilação dos doentes é extremamente difícil. A acumulação de líquido nos pulmões e o aumento drástico da resistência associado à diminuição da compliance (medidas físicas que demonstram a incapacidade do pulmão de se distender) impedem o volume de ar pretendido de entrar. A fracção de oxigénio tem de ser aumentada e as trocas gasosas entre o pulmão e a corrente sanguínea diminuem. 

É verdade que isto acontece com algumas gripes. Acontece com vários tipos de pneumonia. E continua a acontecer. Esse é o problema. O Covid-19 não veio substituir as outras doenças, veio acrescentar um problema de gestão de camas de Cuidados Intensivos através dos seus inexoráveis avanços e da rapidez de deterioração dos estados clínicos dos doentes. 

O nosso serviço é hoje considerado zona contaminada. Não entra ninguém externo ao serviço e para entrarmos na mesma porta de sempre temos de mudar de farda e acrescentar batas descartáveis, touca, óculos de protecção estanques e máscaras de altura filtração (FFP2, pelo menos).

Senti necessidade de ajudar para além do meu trabalho com os doentes. A população tem de ser alertada por vozes que estão no terreno, não apenas por analistas distanciados da realidade ou pelos habituais responsáveis que ocupam um gabinete. 

Decidi usar o meu canal de Youtube, outrora destinado a falar sobre viagens, empreendedorismo e a combater a falta de literacia financeira, decorado com alguns momentos de humor e actividades lúdicas, ao combate às fake news e à circulação de falsos testemunhos e inacreditáveis panaceias universais.

Recursos limitados

Penso muito na análise comparativa entre Portugal e a Suíça que fiz no primeiro vídeo. Estava extremamente cansado e irritado, mas sabia que, ainda assim, estava num meio privilegiado em relação ao meu país. 

Em Portugal há imensas falhas de material no quotidiano, mesmo sem que haja ameaças de pandemia. Algumas histórias são públicas, outras circulam apenas nos corredores de cada hospital. O que é certo é que nem todos os portugueses vivem ao lado do São João ou do Santa Maria. Muitos portugueses não vivem próximos de hospitais que tenham condições logísticas para combater este desafio. Imensos enfermeiros e restantes profissionais de saúde são expostos à pandemia sem condições de se defenderem adequadamente. 

A Suíça é um país rico. Tem reservas de emergência e planos de contingência próprios de quem viveu ao lado das duas Grandes Guerras. Mesmo assim, temos de racionar o material e esperar encomendas inimagináveis que nunca chegam na hora que mais gostaríamos. 

Temos as equipas de ética a decidir quem será intubado. Os protocolos de medicina de catástrofe foram assumidos pelo director geral e pelo director clínico, ficando claro que há doentes que não terão a oportunidade que antes teriam. 

Isto acontece devido à enorme quantidade de casos que aparecem todos os dias. Os hospitais cantonais, mais expostos mas com mais recursos, quase triplicaram as camas de terapia intensiva. Os hospitais mais periféricos duplicaram. Ainda assim, todas essas camas não chegam. Os ventiladores disponíveis não são suficientes. Os recursos humanos estão a esgotar-se, quer pelo contágio, quer pelo cansaço extremo, sendo este o maior do problemas que vamos enfrentar. Sem cuidadores não há capacidade de tratamento. Os ventiladores não ventilam sozinhos.

Tudo isto, num país que tem capacidade de subir o rácio enfermeiro/doente de 1:1 com grande reactividade. Em Portugal isso será extremamente difícil.

E se dedicados a um doente que tem de fazer decúbito ventral, com exigência de vigilância permanente, com colegas novos para integrar na equipa, acabamos os nossos turnos desfeitos entre o cansaço e a sensação de que o fim de tudo isto está longe, que será dos profissionais em Portugal?

Fiquem em casa. A vossa protecção é a nossa protecção. A vossa consciência no isolamento social é parte fundamental na atenuação da curva de contágio. Só assim será possível tratar os doentes críticos, voltar a tratar os doentes de todas as outras patologias sem risco de contágio e voltar à vida normal que todos ansiamos e que agora parece digna de um sonho.

Obrigado a todos os que são cumpridores. Vamos vencer, mas antes vamos ter de lutar muito.

Fernando Miguel Santos

Enfermeiro de Cuidados Intensivos

Suíça