Quem dera que tudo fosse mentira

Hoje, mais do que nunca, gostava que fosse tudo mentira, que tudo não passasse de uma partida típica deste dia.

Esta pandemia roubou-nos as coisas mais simples, provavelmente as mais valiosas que tínhamos. Não foi apenas a mim que o fez, foi a todos. A mim, levou-me a vida que tinha até há um mês atrás, a quietude, as inquietações corriqueiras… Mais do que isso, levou-me um amigo.

Muito embora a nossa convivência fosse esporádica tinha-se recentemente acentuado. Era daquelas presenças que damos como garantidas ao longo dos quinze anos de conhecimento. Era daquelas pessoas que consideramos um exemplo de sucesso pela forma digna e esforçada como conduziu a sua existência.

Estes são danos irreparáveis, mas temos algo a fazer contra esta enormidade pandémica que ameaça destruir os nossos laços. Temos um combate a travar, seja pela paciência, seja pela memória.

Presencio com muita regularidade a maior herança que este meu amigo podia ter deixado: os valores que transmitiu aos seus. Vejo o seu espelho no filho, de quem sou ainda mais próximo, e em quem sei que esses valores nunca se esgotarão. 

Nenhuma palavra é suficiente num momento como este. Sei que a minha vida voltará a ser parecida ao que era, mas nunca será igual. Nesse dia, em que possamos deixar de preencher as nossas cabeças com este pesadelo, teremos de levantar a cabeça e tornar-nos ainda mais fortes. Olharemos estas cicatrizes de tantas batalhas e saberemos que estamos mais profundos. Talvez possamos até deixar de ligar àquelas inquietações corriqueiras de antigamente, que agora parecem tão fúteis. 

Nesse dia, podemos ficar perdidos, sem saber o que fazer. É, então, que podemos voltar-nos para os valores que nos foram deixados, aos modelos dignos que nos foram tirados de repente e tentar fazer com que o seu exemplo seja honrado a partir da nossa memória. Sim, memória. Onde ficarão sempre o sorriso e o abraço.

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