Covid-19: preparados para a batalha

Na Suíça, como tenho escrito e comunicado nos meus vídeos, os recursos são enormes. Nos Hospitais Universitários de Genebra, o número de camas de Cuidados Intensivos aumentou de trinta e duas para sessenta e mais tarde para oitenta. O número de intubados por Covid-19 ronda os sessenta pacientes. No Hospital de Nyon aumentamos também o número de camas para mais do dobro. Sem contar com o novo serviço que foi criado para receber doentes ventilados, onde antes havia lugar para sete doentes há agora mais uma box disponível. Todas as oitos estão ocupadas com casos de Covid-19.

Antes do surto, dependendo da carga de trabalho, podíamos ser três ou quatro enfermeiros por turno. Agora chegamos a ser seis ou sete. 

Continuamos a ter de ser comedidos no uso de material, porque a utilização multiplicou-se de forma alucinante. A Suíça tem poder económico para fazer face a estes desafios, no entanto, é a carga de trabalho aumentada que implica que se esgotem os stocks disponíveis, não apenas no hospital, que tudo faz para ter o material necessário, mas também junto dos fornecedores.

Não é por se ser um hospital regional, mais pequeno, que os desafios são diferentes. Da mesma forma que há menos camas e menos doentes, também há mais dificuldades logísticas de espaço e recrutamento, por exemplo. 

Com a antecipação da reorganização dos serviços e com a transformação de espaços ambulatórios em locais apropriados para ventilar doentes que estejam infectados com o coronavírus (ou que tenham outra patologia que necessite de ventilação mecânica), estamos preparados. 

Não é, contudo, motivo para baixar os braços e achar que tudo está feito. 

Metaforicamente, imagine-se alguém que descobre que tem de apanhar o comboio dentro de quarenta minutos. Estando ainda em casa, pode perder o comboio e sofrer as consequências do seu atraso. Assim sendo, arranja-se o mais depressa possível, acelera até à estação e acaba por chegar dez minutos antes do comboio passar. Está preparado, é certo, mas ainda tem de esperar que o comboio chegue e continua a não poder perdê-lo. 

É nessa fase que nos encontramos. Podemos esperar por uma vaga, desejando que ela não aconteça, mas sabendo que lhe podemos fazer frente dentro das nossas possibilidades. 

Nas Unidades de Cuidados Intensivos o cenário é impactante. Muitos doentes necessitam de vigilância ainda mais apertada do que aquilo que é comum. A evolução rápida da doença leva-nos a redobrar a atenção, a gerir a ventilação com mais vigilância e a posicionar muitos doentes em decúbito ventral (para podermos melhorar a relação entre a ventilação e a perfusão dos pulmões).

O pico da curva de evolução da epidemia ainda pode estar longe. As medidas para a população vão sendo tomadas de forma diferente, mais lenta do que em outros países, porque a capacidade de resposta dos serviços de saúde assim o permite.

As palmas que se ouvem diariamente, pelas quais somos agradecidos, devem continuar a ser acompanhadas pela consciência de que o afastamento social é determinante no controlo da pandemia. Aplicam-se multas de sensibilização que, segundo responsáveis políticos, têm a intenção de consciencializar os mais jovens. São multas mais baixas do que em França, por exemplo, mas é provável que venham a ser aplicadas com mais frequência. Servem, maioritariamente, para mostrar que a situação é real. 

Os horários que praticamos nos Cuidados Intensivos são mais duros. Mais horas mensais, mais colegas novos para integrar, mais cansaço ao final de cada turno. A nossa estabilidade física depende também da estabilidade dos doentes. Se eles pioram, nós pioramos. 

Tratando-se de uma guerra ingrata e cega nem sempre sabemos como o inimigo se comporta. Por isso, temos o nosso exército de profissionais de saúde preparado para as batalhas que se avizinham. 

Sabemos que não se trata de um sprint, mas sim de uma maratona. Temos de ter as forças todas unidas para que as batalhas se resolvam a nosso favor. 

O inimigo não mostrou até agora a sua máxima força, mas mesmo assim consegue tomar algumas vidas e desgastar aqueles que o combatem. Bom seria que esse momento nunca chegasse, mas quando chegar, estamos preparados. 

Talvez este seja aquele momento de silêncio que antecede uma investida, mas aqui estamos nós, de armadura esterilizada e conhecimento científico em punho, para combater esta ameaça. 

Link directo para os vídeos: https://linktr.ee/info.covid19

À hora de produção deste texto (dados do OFSP e da DGS):

Suíça – 19303 casos / 484 óbitos

Portugal- 9886 casos / 246 óbitos

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