Positividade em pandemia

É difícil ser positivo quando tudo o que nos rodeia é um mundo transformado e uma escuridão que desconhecíamos. A impotência de não poder salvar toda a gente, de ver a forma negativa como evoluem alguns doentes, de não poder viver como antes….

Manter a força para continuar pode ser duro, mas temos de abrir os olhos para procurar aquilo que estamos a fazer bem, para as aprendizagens às quais estamos a ser expostos.

Não vai ficar tudo bem imediatamente. O mundo mudou e, muito provavelmente, essas mudanças serão duradouras, algumas das quais permanentes. Depois de tudo isto, precisaremos de todos para levantar uma realidade diferente daquela que tínhamos, com novos desafios e novas premissas. 

Há um dos meus textos anteriores que fala de algumas reacções negativas que tive às minhas intervenções na SIC e no Pista de Aterragem, o meu canal de YouTube. Hoje, para cumprir o conselho do directo que fiz no passado domingo, quero sublinhar aquilo que de bom me aconteceu nesta nova jornada.

As mensagens de apoio, com selfies ao lado da televisão onde apareço, são incontáveis. Família, amigos, amigos de amigos, desconhecidos… As mensagens foram sendo recebidas em catadupa, sem que eu me apercebesse da dimensão que isto tinha tomado.

Enfermeiros portugueses aqui na Suíça começaram a partilhar os meus vídeos. Um deles, de Rennaz, adicionou-me num grupo de discussão sobre temas de saúde. Um enfermeiro com cargo de chefia de Berna enviou-me algumas mensagens de apoio e partilhou alguns dos vídeos. Hoje, falamos duas vezes por vídeo chamada para trocar ideias sobre a prática clínica.

Fui apoiado por vários colegas do hospital: enfermeiros, médicos, auxiliares, secretárias, pessoal da limpeza… Recebi leite e chocolate à minha porta, mensagens a oferecer ajuda para tratar da roupa vindas de cantões distantes, chamadas de amigos que já não vejo há alguns anos e que decidiram dar-me força sem teres de passar pelas redes sociais.

Tudo isto não tem preço. Apesar de todos termos uma pequena tendência a olhar para os problemas em vez de procurar soluções, tudo isto suplanta largamente o lado negativo da exposição. 

Os agradecimentos dos familiares dos doentes que apenas recebem notícias pelo telefone é outra das sensações que me aquecem o coração. As boas acções da vizinhança do hospital, que nos aplaude todos os dias pelas 21h e se organiza para nos oferecer comida, snacks e bebidas energéticas, são uma lufada de ar fresco no meio desta abafada realidade.

Sabemos que nem todo o ser humano tem um coração decente. Apesar de devermos lutar para que todos sejam respeitados, é garantido que alguém que aproveite esse benefício o vai renunciar na hora de devolver. A justiça é uma ambição tão legítima como utópica que, deixando-se influenciar pelo medo e pela falta de inteligência, pode desvanecer-se até mínimos históricos. 

Mesmo assim, enquanto houver luz é dia. Enquanto houver união, humanismo, respeito e compaixão, somos humanos. Enquanto houver palavras de amor e admiração, palmas sentidas, ofertas dignas e agradecimentos sentidos também há espaço para sorrir.

Enquanto existirem pessoas como vocês, que fazem pender o fiel da balança para o lado mais brilhante e digno de ser pessoa, em vez de ser só gente, vale a pena lutar.

E vale a pena lutar para vos poder devolver uma palavra: obrigado.

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