Covid-19: Depois de beijar a cruz, o Dia do Trabalhador.

Foto 1 Maio

Depois de beijar a cruz, o Dia do Trabalhador.

Tendo a ser alguém moderado na manifestação das minhas convicções, por isso, qualquer expressão de fundamentalismo – ou fanatismo, como quiserem – causa-me aversão.

A questão não é a importância do dia. Isso dirá respeito às convicções de cada um e tem a importância que comummente  têm os feriados nacionais. A questão será sempre o limitado sentido de oportunidade e a inconsciência.

Além da aversão que me causa, sinto-me desiludido com a natureza humana. As prioridades de alguns encontram-se invertidas. É mais importante assinalar uma data que se manterá pelos anos vindouros do que preservar a integridade física e as vidas daqueles que podem não estar cá daqui a quinze dias.

Manifesto-me sempre contra os extremistas que disseminam informações falsas e demagógicas. Neste caso, a informação transmitida é que o respeito pelos profissionais de saúde e por todos os que como eles arriscam as suas vidas está depende de motivações ideológicas.

No que toca ao fundamentalismo não há direita nem esquerda. Quanto à inconsciência também não. Fanatismo é um fenómeno que auto-alimenta e que potencia de um extremo ao outro. Um fanático além de se sentir reforçado ainda oferece um argumento para outro fanático que com ele concorde ou que dele discorde diametralmente para agudizar este tipo de atitudes. Esse efeito de avalanche pode ainda levar os mais incautos a radicalizarem as suas opiniões. Nessa altura, em vez de um jardim, serão os serviços de cuidados de cuidados intensivos a transbordar de infectados e as redes sociais repletas de impropérios e manifestações de limitaçao intelectual.

Agrupar grupos imensos de pessoas em autocarros e depois tirar uma fotografia quando estão todos posicionados com uma distância de dois metros é falacioso. Também é estúpido porque ninguém pode acreditar que a distância de segurança foi cumprida a cada momento.

Se até agora Portugal tinha sido um bom exemplo de contenção que dizer desta manifestação em pleno Estado de Emergência? Que dizer dos enfermeiros que exibiram cartazes de reivindicações neste triste cenário enquanto os seus colegas enfrentam quartos de isolamento e doentes infectados? Que dizer sobre a festa do trabalhador que não respeita aqueles que mais trabalham neste momento?

Chego à conclusão que antes de aconselhar o uso de máscara ou viseira devíamos exigir que tirem as palas dos olhos.

Fernando Miguel Santos

%d bloggers like this: