As pessoas são o mais importante

Este texto não consiste numa refutação aos curricula de quem cito. Cada um faz o seu caminho e é protagonista da sua vida da forma que mais lhe aprouver. Eu também o faço, logicamente.

Porém, o rigor deve estar sempre presente em quem se afirma especialista. Caso exista um erro, ao qual todos, como humanos, estamos expostos, exige-se uma correcção.

André Dias, informático com doutoramento em modelação de doenças pulmonares, afirma que o confinamento é exagerado. Justifica esta opinião com o caso da Suécia, que decidiu não proceder ao lockdown, e comparando o coronavírus a outros vírus.

O caso da Suécia, ainda que peculiar, tem vários factores que podem levar a conclusões precipitadas. Vários notícias apontam para uma quebra económica da Suécia pela diminuição de procura de bens e serviços pela população, ou seja, apesar do confinamento não ser decretado foi efectivamente concretizado por alguns suecos. Acresce ainda o facto de haver diferenças culturais de convivência entre os povo nórdicos e os povos latinos. Na Suíça, entre cantões, essa mesma diferença pode ter influenciado o menor número de casos nos cantões germânicos, como também apontou Alain Berset, Conselheiro Federal e Ministro da Saúde.

Em suma, não se pode concluir tão facilmente que o não confinamento da Suécia teve os mesmos resultados que o confinamento português. É demasiado simplista.

Quanto à comparação com outros vírus, André Dias tem razão em afirmar que este não é o pior vírus que podemos encontrar e que outras doenças são mais perigosas. Daí a concluir que não devemos ser cautelosos e que devemos proceder a um término imediato do confinamento vai uma distância enorme. Uma doença, seja ela qual for, que mate não deve ser descurada nem pode ser avaliada apenas do ponto de vista estatístico. Afinal, estamos a falar de pessoas.

Em entrevista telefónica ao observador, André Dias disse ainda que o coronavírus pode voltar como uma estirpe da gripe. Sendo que o Sars-Cov-2 é da família dos coronavírus e a gripe é a doença provocada pela família influenzae nota-se uma falta de rigor.

Por último, a mistura do ataque político das suas afirmações tolda a análise que efectuou, que por sua vez foi refutada por outros autores com o mesmo nível de competências matemáticas.

José Aires Pereira é pediatra. É elogiado frequentemente pela sua competência profissional. Nas suas redes sociais a informação que difunde é partilhada amplamente. Numa dessas publicações, Aires Pereira tem um texto em associação com um vídeo sobre autópsias realizadas em Itália. Nesse texto, afirma peremptoriamente que a Covid-19 não é uma pneumonia, mas sim uma trombose generalizada.

A afirmação é falsa, porque a consequência mais grave que se presencia em Cuidados Intensivos com estes doentes é a ARDS (acute respiratory distress syndrome), uma inflamação pulmonar extremamente grave, cujos critérios incluem, entre outros, a pneumonia bilateral.

A maioria dos doentes em Cuidados Intensivos tem administração contínua de heparina para evitar problemas trombóticos e o mesmo acontece nesta nova doença. Embora exista a necessidade de administrar uma dose ligeiramente mais elevada, não é caso para dizer que a doença é apenas isso e não tudo o resto que ela acarreta.

No seu Facebook, o próprio verificador de factos da rede social declara que dois desses posts são informações falsas, ainda que isso não tenha induzido à retirada das publicações que continuam a ser partilhadas.

Numa outra publicação, Aires Pereira declara ter escrito missivas aos responsáveis políticos em Portugal para a aplicação da hidroxicloroquina como tratamento para a Covid-19. Baseia-se, provavelmente, nos estudos observacionais de Didier Raoult, infecciologista francês célebre. No entanto, este último fez um trabalho que foge à medicina baseada em evidência. O estudo não é randomizado ou controlado e baseia-se na observação de um grupo pequeno de doentes.

Perante isto, concluo que cada vez é mais difícil para a população em geral, normalmente leiga no que toca a estas áreas, encontrar informação fidedigna. Contudo, não me parece correcto validar uma opinião pelos trabalhos anteriores se esta se confirmar errónea. Por isso, este tipo de partilhas deve ser evitada ou corremos o risco de nos transformarmos num tablóide gigante que veicula ainda mais pânico do que o próprio vírus.

Em última análise, o importante são as pessoas. Independentemente da forma de tratamento que vier a ser descoberta, cabe-nos evitar a disseminação da doença. Para isso, temos de estar informados. Bem informados.

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