Poemas de Avião #1

Pedestais

Somos todos vulneráveis
Às declarações amáveis
Que oferecem altitude
Nuvens nos pés
Visão sem viés
Túnel que nos ilude

Ícaro também lá chegou
E só depois se provou
Que tinha a culpa toda
Cobertura de inocência
Manto de inconsciência
Ou simples efeito de moda

Mas somos roupa estendida
Engelhada ou esquecida
À espera de mais um uso
Repousamos nas nossas gavetas
Mamamos nas mesmas tetas
Desejos em fluxo profuso

Já me fizeram um pedestal
E cheguei a sentir-me mal
Quando me quiseram descer
As pálpebras ficam abertas
Erradas passam a certas
E deixas de te debater

Tudo queremos à farta
Vamos até à espargata
Dum pé em todos os caminhos
Sem a córnea nublada
Atenção mais aguçada
Preferimo-nos sozinhos

Somos nós contra ideais
Matamos as mulheres fatais
E enterramos os heróis
Os despojos abandonamos
Vestidos de nudez avançamos
Somos apenas faróis

Já não somos tudo para todos
Desviamo-nos dos engodos
Não agradamos os demais
Dá-se uma revolução
E chegamos à conclusão:
Que se fodam os pedestais.

Fernando Miguel Santos
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