Covid-19: Será a Suécia um caso exemplar?

Cartoon de Marco de Angelis

Tenho vindo a assistir a uma nova noção que se criou nas redes sociais. Além da desvalorização da vida humana através da estatística, muitas vozes (e artigos) se levantam contra o confinamento.

Muitos profissionais de saúde partilham dessa opinião, infundada como já demonstrei em vários textos e vários vídeos. Nenhum desses profissionais de saúde que vi defenderem a economia antes da vida são profissionais de Cuidados Intensivos. Muito provavelmente, não viram directamente os efeitos do novo coronavírus. Não tiveram ninguém próximo que morresse. Não sofreram horas intermináveis de trabalho e as marcas psicológicas que daí advêm. Não passaram (nem passam) noites sem dormir.

Não percebem o valor de uma vida, talvez. Não percebem que a economia mundial não poderia passar impune a uma pandemia e, talvez por isso, não enxergam a vantagem do afastamento social e dos métodos de confinamento.

Só entendem números e adoram falar da Suécia como um estado exemplar no combate à Covid-19. Então, se gostam de números puros e duros, é números que lhes podemos dar.

Portugal e a Suécia tem aproximadamente a mesma população, na ordem dos 10 milhões. Portugal procedeu ao confinamento através de um Estado de Emergência e a Suécia decidiu não confinar ninguém. O país nórdico tem metade da média europeia de dívida pública criada devido à pandemia, segundo noticiado pela televisão suíça. Talvez fosse esse o objetivo, independentemente das consequências.

Segundo o Worldometers, Portugal ontem somava 32.895 casos e a Suécia 38.589. Nesse mesmo dia, Portugal tinha um aumento de 195 casos e a Suécia de 775. Hoje, Portugal aumentou 366 e a Suécia 2214. 

Ainda não chega? Muito bem, aqui vai. Portugal tem um número total de mortos de 1447. Na Suécia morreram 4542 pessoas. Isto significa que a tão elogiada política de não confinamento da Suécia os colocou no 7º lugar dos países com mais mortes por milhão de habitantes, ao passo que Portugal ocupa o 23º lugar. 

É provável que, mesmo assim, estes números não cheguem. Aqueles que preferem a estatística às pessoas e que se escudam na desculpa da crise económica para se manifestarem contra os diferentes programas de confinamento ao redor do Mundo, incluindo em Portugal, não viveram a mesma realidade que os outros. Aparentemente, a pandemia passou por eles de maneira diferente.

Um dia isto acaba e não precisaremos de nos confinar de novo por causa deste vírus. Estaremos preparados para outra realidade como esta, caso tal nos venha a acontecer. 

Nessa mesma altura, o único confinamento a que estes analistas estarão dispostos é ao da sua inteligência. Essa continuará confinada, como está e tem estado até aqui. 

Fernando Miguel Santos

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