Louco por Ela

MUITO MAIS DO QUE UMA COMÉDIA ROMÂNTICA

Sou um ávido consumidor de histórias. Essa consistência em cruzar o real com a ficção, em tentar interpretá-los como duas faces da minha existência, têm-me proporcionado momentos deliciosos. 

O facto de ser eclético nas minhas escolhas proporciona outro feliz acontecimento: o cruzamento inesperado de interesses, a conexão de mundos que normalmente não se tocam. 

Louco por Ela é um desses acontecimentos. Produzido pela Netflix, realizado por Dani de la Orden e escrito por Natalia Durán e Eric Navarro, o filme retrata uma noite ardente, uma mulher que abandona o homem à porta do hotel, uma busca pelo número de telefone que os pode tornar mais próximos. Uma comédia romântica como qualquer outra, aparentemente.

Não é. É muito mais do que isso. É um tratado de consciencialização para a saúde mental.

Ainda que alguns espectadores possam não ter essa noção, para quem vive no mundo da saúde, de um modo geral, ou para quem convive com problemas de saúde mental, na primeira ou na terceira pessoa, o estigma sobre a doença mental é terrível. 

Vivemos num mundo que quase nos obriga ao sorriso, a uma certa normalidade, a viver segundo uma expectativa que, arrisco, pode nem sequer corresponder às nossas. Alguns optam por ser disruptivos, outros por se alinharem. 

As pessoas portadoras de doença mental não podem alinhar-se. Não podem escolher esconder a  sua doença, os desafios que ela implica, as dificuldades que enfrentam no quotidiano. Não deviam tampouco ser forçadas a fazê-lo. 

Algumas das conversas mais interessantes que tive na minha vida profissional foram com doentes psiquiátricos. Lembro-me de várias situações onde a premissa da conversa era superficial, mas a profundida que depois foi explorada me surpreendeu. Aprendo sempre com estas pessoas. 

Este filme sublinha esta última palavra. Pessoas. Não são só doentes, não são loucos, malucos ou desenquadrados. São pessoas. A personagem de Luis Zahera, o Saúl, é um exemplo perfeito disso. Esquizofrénico paranóide, uma expressão que podia defini-lo, é contudo um diagnóstico que fica muito além da pessoa que o transporta. Como sempre acontece com um diagnóstico. 

No interior do hospital psiquiátrico onde se desenrola parte do filme são abordadas várias patologias: o distúrbio maníaco-depressivo, conhecido como bipolaridade, a esquizofrenia paranóide, o comportamento obsessivo-compulsivo, a depressão…

Com um travo cómico que aligeira estas questões, e para o qual contribui o lado inesperado do Síndrome de Tourette de uma das personagens, somos levados numa viagem de amor entre duas pessoas. Isso chega. Não interessa se uma sofre duma doença psiquiátrica e outra não. Na verdade, sofrem as duas, porque amar é partilhar o sofrimento. 

Louco por Ela tem tudo para ser um filme ligeiro de domingo à tarde e, para muitos, os menos despertos para esta realidade da saúde mental, pode sê-lo.

Para quem queira perceber toda a dinâmica de ser portador de doença psiquiátrica, de estar integrado na sociedade, de não ser estigmatizado apesar de ser diferente, de não ser julgado por algo que não se consegue controlar, de não ter de se controlar algo apenas porque não é coincidente com um “cânone convencional”, enfim, de ser pessoa com todas as dimensões que isso possa implicar, é um filme importante. 

Diz o ditado que “de génio e de louco todos temos um pouco”. Afinal, como fica bem explícito neste filme, loucos são apenas os que gostam de rotular a loucura dos outros. Loucos somos nós, não eles. Mas, afinal, quem somos nós e quem são eles? A fronteira é tão ténue que não devia existir. Quando assim for, seremos todos apenas “nós”.

Ficha Técnica:

Loco por Ella || Crazy about Her 

Produção: Netflix

Realização: Dani de la Orden

Argumento: Natalia Durán, Eric Navarro

Elenco: Álvaro Cervantes, Susana Abaitua, Luis Zahera, Aixa Villagrán, Nil Cardoner, Paula Malia, Clara Segura

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