Covid-19: imagem de uma noite

Foto do hospital de Cremona. Copyright: PIAZZAPULITA/Reuters TV

Mais uma noite. Mais decúbitos ventrais. Sim, doentes virados de barriga para baixo, apesar de toda a parafernália que os rodeia: cabos de monitorização de ritmo cardíaco, catéter venoso central, catéter arterial, catéteres venosos periféricos, tubo endotraqueal, sistema de aspiração fechado, sonda nasogástrica, sonda vesical… À volta, várias máquinas: monitor com os parâmetros vitais, ventilador, cama articulada, colchão com alternância de pressão. Bastariam as designações para assustar um leigo.

Cinco pessoas reunem-se à volta do doente, equipadas dos pés à cabeça com equipamentos que aquecem a um ritmo maior do que a ansiedade do momento. O movimento é controlado, mas não deixa de ser uma volta de 180 graus num doente que está sedado (coma induzido), analgesiado (para não ter dor) e curarizado (com bloqueio de qualquer movimento muscular). 

Depois vem a dessincronização com o ventilador. O efeito do curarizante previne-a durante um tempo, mas não sempre. Voltam-se a mudar parâmetros ventilatórios para adaptar o doente à respiração a que o queremos obrigar.

A todo o custo, tentamos posicionar os doentes sem fazer demasiada pressão no nariz, nos olhos, nos lábios que ficam em contacto com o tubo e prevenimos as zonas de pressão que podemos. Não há decúbitos ventrais perfeitos. 

Fazemos análises regulares ao sangue arterial para conhecer a sua composição ao nível dos gazes. Analisamos o oxigénio e o dióxido de carbono e voltamos a adaptar o ventilador. Tudo isto se passa numa hora. Restam onze horas para fazer. 

Regularmente, mudamos o lado de apoio da cabeça. Massajamos o doente conforme seja possível. Entretanto o doente tosse. Aspiramos as secreções em posição desconfortável e voltamos a repetir o processo de adaptação ventilatória. 

Enquanto fazemos tudo isto, tentamos proteger-nos ao máximo. Máscara com taxa de filtração acima dos 90%, bata, luvas, touca, protector do pescoço e óculos. Evitamos contaminar determinadas zonas do ambiente que rodeia o paciente. 

Controlamos ritmo cardíaco, tensão arterial, diurese (débito urinário) e parâmetros ventilatórios com frequência horária. Isto se o doente estiver estável. Caso contrário, aumentamos a regularidade.

Ainda há medicamentos para administrar, seringas para trocar dado o ritmo a que se esgotam, perfusões para acrescentar em caso de surgirem problemas associados como uma hiperglicemia ou uma hipocaliemia (descida do potássio).

Há actos que fazem parte do nosso dia-a-dia de sempre, mas esta doença não. É nova e é irritante. Descompensa os nossos doentes com uma velocidade que não conseguimos controlar e aumenta-nos a quantidade de doentes a um nível difícil de suportar.

Passamos o turno neste equilíbrio frágil, segurando a vida de um desconhecido pelos fios que podemos. De manhã, ainda há que ter a mente clara para transmitir tudo ao colega que chega, que replicará aquilo fizemos, e para escrever algumas notas. Só partimos quando tudo fica claro para quem nos vem substituir. 

Tomamos banho no serviço, chegamos a casa e comemos qualquer coisa. Há quem se deite logo, extenuado. Há quem tenha dificuldxade em dormir. 

Há quem escreva para libertar a cabeça das imagens indeléveis que o trabalho nos imprime. 

Fernando Miguel Santos

Enfermeiro de Cuidados Intensivos

Suíça

Viagem

Texto publicado originalmente no projecto Arcádia XXI a 21 de Abril de 2008

Outrora a viagem era um luxo. Hoje é algo que se começa a tornar comum. Os preços baixam, os passageiros aumentam, nem sempre na mesma proporção, mas de uma forma que em muito democratizou o acto de viajar. Democratizou?

Entro no avião e vejo gente que não imaginei que existisse dentro de um. Gente de todos os estratos sociais. Isso agrada-me. Já não é preciso emigrar de carro, com a casa amarrada no tejadilho com uma corda atada em cruz e presa aos ferros da carrinha. Já não é preciso esperar três ou quatro dias, talvez cinco, a mandar calar os filhos, a mandar «estes condutores estrangeiros à merda», para chegar a França. 

Paris já não tem de sentir o suor da chegada desse imigrante. Sim, imigrante. Bem-ditos sejam para o país que os acolhe. Bem-ditos os que não esquecem o país nem se enchem de grandeza. Que fariam os patrões para quem eles chapam massa nas obras se os vissem ao volante do BMW serie 7 com que passam a fronteira de Portugal? Rir-se-iam depois de verem o porta-chaves da Rent-a-car preso à chave?

Não. Não democratizou. Há ainda objectivos diferentes. É possível ter dois turistas, que passam o mesmo tempo na mesma cidade, visitando os mesmos monumentos à mesma hora. As experiências são iguais, os momentos idênticos e ainda assim as recordações, o proveito e a utilidade são diferentes. Um chegará a casa e dirá que gostou. O outro chorará o regresso.

Chego a casa e choro o regresso. Da próxima, prometo, fico lá mais tempo. É sempre assim. Um regresso penoso que me leva a querer ficar, a não querer deixar para trás aquilo que sinto ser meu. As cores são diferentes, os cheiros mais intensos. Talvez seja só esta película que me embota os olhos.

A próxima vez. É sempre nisso que se pensa quando se regressa, não é? E porque não concentrarmo-nos no gozo que nos deu esta, primeiro. Porquê a pressa? Porquê? 

Ainda ninguém percebeu que deixar passar estas coisas é como foder e acordar de manhã sem se lembrar? Ninguém entende que, se aquilo que se come tem de ser digerido, também aquilo que se vê merece uma digna reflexão?

Reflexão? Bonito é sentir! A sensação de poder fazer o que se quer, a liberdade feita, perfeita, como só ela consegue ser, sem inibições, impedimentos, coisas com que se preocupar. Que raio de palavra é essa, reflectir? Sonhar sim, agora reflectir?

Que a reflexão se torne um sonho. Que assim seja. Mas deixar tudo num limbo de perdição, ver, passar, andar com o passo fustigado por uma pressa que não se pode mudar, é pior do que não percorrer. Deixar que as coisas se traduzam num simples «fui» e não se reúnam num completo «foi», numa descrição silenciosa que só o olhar expressa…

Há quem mostre, assim, não merecer.

Sim, é verdade. Agora vamos?

Vamos.

Fernando Miguel Santos

Quando voltamos somos outros

“Cada viagem é uma partida. Cada partida é uma expectativa, como é um abandono. Há quem fique.”

(…)

“Quando voltamos somos outros, porque da mesma forma que partimos daqui, partimos de lá, e mais peso menos peso, o que custa é partir.”

Novo guest post, Quando Voltamos Somos Outros, escrito por Fernando Miguel Santos no blog Eu Sim Tu Não.

 

Leia os mais recentes textos do autor de Aldeia de Luz, Dois Maços, Quando o Natal Quiser e Guilherme e os Duendes nos blogs Pista de Aterragem e Fiel Depositário.