Quando voltamos somos outros

Texto originalmente publicado no blog Eu Sim Tu Não, a 18 de Dezembro 2008, dedicado pelas criadoras do blog aos profissionais do INEM falecidos na sua derradeira viagem ao serviço do nosso país.

Cada viagem é uma partida. Cada partida é uma expectativa, como é um abandono. Há quem fique.

Um caminho não se faz sem uma partida, mesmo que não mudemos de lugar. É um pagamento que temos de fazer, mesmo que não seja literal. Temos de trocar algo pela oportunidade de ver mais mundo. Só então nos é retribuído.

A viagem mostra-se, mas é de dentro. A partida é feita muito antes de partir. Somos já outro quando decidimos que partimos. Porque partir também é separar.

Partir é sempre separar. Separarmos cacos de objectos, separarmos fatias de bolos, separamos ligações afectivas. É esse o acto de partir.

Assim como conseguimos individualizar partes de objectos é através da partida que nos individualizamos.

Curiosamente, a retribuição não aparece se não estivermos abertos. Passa por nós e não a vemos, que é o mesmo que não passar por nós. Precisamos de estar partidos, mais abertos do que a abertura que normalmente somos e eis que algo nos congrega. É a retribuição. Então, deixamos de estar partimos e ficamos novamente prontos a partir.

Às vezes temos de nos justificar decisões pessoais até que a repetição soe a razão. É assim quando mudamos de país, quando mudamos de emprego, quando escolhemos fazer um caminho que é estranho.

Olhamos por nós, mas olhamos pelos outros. Não precisamos de partir para longe para ser longe de mais. Pode ser apenas aquele velar nocturno que oferecemos ao outro, pode ser a singela vigilância, pode ser apenas um toque.

Partimos dos nossos para os que passarão a ser nossos. Não exigimos estar inteiros.

Quando voltamos somos outros, porque da mesma forma que partimos daqui, partimos de lá, e mais peso menos peso, o que custa é partir.

Uma jornada só o é porque sabemos que há uma força que nos atrai. É ela que vence a inércia de não mexer nenhum músculo. É uma atracção que nada tem que ver com destino. Tem que ver com missão.

Quando partimos é de mãos dadas connosco. O medo é breu, mas o coração é lanterna. Em cada viagem, sabemos que um dia aquele será o nosso leito. Também vamos querer que haja alguém partido à cabeceira.

Fernando Miguel Santos

O destruidor de rebanhos

Texto publicado originalmente no projecto Arcádia XXI a 21 de Março de 2008

Um dia acordamos e sentimos um impulso terrível. Uma sensação de dever incumprido, um aperto, uma força interior. Se não a seguirmos consome-nos. Se formos atrás dela corremos riscos enormes. Sim, é este o problema. O risco. Não há quem lide bem com ele e apenas só uma vez por outra se encontra alguém que saiba como contornar esse medo.

Se o risco não existisse não haveria heróis, os valentes seriam como qualquer outro; não existiria fantasia e os sonhos seriam fuligem pousada em mobiliário antigo. 

Tenho uma amiga que deixou de falar comigo durante um certo tempo. Pensei que a memória dela não fosse perfeita, como nenhuma é, e acabei por aceitar que era ocupada de mais para me falar. Certo dia, confessou porquê. Por entre problemas, tinha conhecido o homem da sua vida e vai casar e viver com ele fora do país. Desde o final do ano passado até agora, o seu sonho tornou-se o seu farol e, numa atitude que muitos tomariam como inconsciente, aceitou mudar a sua vida.

Embora esta história tenha um tom um tanto ou quanto semelhante aos livros de auto-ajuda tem uma diferença: é verdade. E é assim que todos devíamos ser. Implacáveis quanto àquilo que amamos. Recusarmo-nos a entrar na fila indiana, no rebanho, preferir o carrossel alucinante de uma escolha desmesuradamente recheada de novidade e risco. Abater o medo com uma espingarda de sorte e jogar connosco, confiando-nos a nós próprios. 

Abrirmos as asas não é difícil. Difícil é deixá-las bater por si só, como fazem os pássaros, desviando-nos de correntes adversas quase instintivamente e apoiando-nos em poços de ar quente para subir, poupando energia para as lufadas contrárias ou as tempestades de chuva.

É tão-somente ouvir o que vai dentro de nós. Quem nunca pôs um búzio na orelha? Hoje, o búzio somos nós. Ouvimos hoje o que o nosso búzio diz. Amanhã partimos.

Fernando Miguel Santos

Não amor

Texto publicado originalmente no projecto Arcadia XXI a 21 de Fevereiro de 2008

Há um estigma ligado ao romantismo. Negá-lo é negar a existência deste último. Se é que podemos dizer que ele existe.
A verdade é que o romantismo é quase tão diletante como a paixão pura e dura. Talvez nem exista como estilo de vida, tratando-se apenas de uma opção temporária. Não podemos nós ser românticos hoje e amanhã não?
É difícil enfrentar essa responsabilidade e cumpri-la de forma satisfatória. Há sempre um jantar, um ramo de flores, um sonho, há sempre algo que se interpõe no caminho fácil de quem não se subjuga às algemas do romance. No dia que elas se encaixam, é como se a chave fosse deitada fora, como se a liberdade estivesse presa por um pé a uma corda. Na outra ponta, uma pedra. E eis a nossa liberdade a sufocar depois de cair nas águas do tempo imenso, presa.
Na verdade, não há um único amor. Cada um tem o seu, e cada pessoa que o partilha tem dele uma versão e uma visão diferentes. Por isso, não pode existir romantismo como identidade unificada. Existe, sim, uma tentativa de corresponder a alguém, de suprir uma necessidade maior que se traduz em algo incorpóreo. Para quê tentar definir o indefinível? Porque não conseguimos deixar o importante indefinido. Simples.
E, de repente, vemos um rosto. Um cheiro e uma voz fazem-lhe companhia. Um corpo aparece. Olhos, lábios, contacto. Juntam-se, entram numa fase de banho-maria, transformam-se, unem-se e criam uma sensação. Apenas essa sensação existe, agora. Já não há indivíduo, há conjunto e parceria. Nem que seja por uma noite. Como os homens não se medem aos palmos, também as sensações não se medem ao minuto. Não há tarifa que as pague.
Então, esse não amor que insiste em catalogar estilos de vida e decidir quem é ou não valioso, cujos olhos são mais do que dois, mas olham todos só numa direcção, esvai-se. Sobra, nessa altura, o livre arbítrio. Temos espaço. Deixamos o não cair. O restante, usamos como nos aprouver, pelo tempo que for, na complacência rara da partilha com um outro e não com a sociedade. Só existem dois ali. Por mim, saio, em silêncio e deixo-os em paz. O seu não amor rejeita o amor que lhes querem impingir. Que assim seja até que a morte (do seu não amor) os separe.

Fernando Miguel Santos

Bom Sucesso: a telenovela literária

Quem disse que as telenovelas são inevitavelmente fúteis?

Nos anos 90, as telenovelas brasileiras faziam o serão dos portugueses. Muitas delas, baseadas em livros de esplêndidos autores – como Gabriela Cravo e Canela e Capitães da Areia – contavam  histórias bem criadas com o fulgor produtivo da Globo.

Depois, muitos anos mais tarde, veio a produção nacional. Com raros casos de interesse, como algumas telenovelas de Tozé Martinho, a maioria continha histórias vazias e desinteressantes que só serviam o público que busca a despreocupação. A culpa, maioritariamente, é dos autores. 

Lamentavelmente, a maioria dos guionistas nacionais preocupa-se mais em criar algo básico. As tramas são previsíveis, as personagens são planas e a história redundante. 

A primeira telenovela que me lembro de ver foi Felicidade, baseada nos contos de Aníbal Machado. Foi emitida em 1991. Entretanto, a diminuição da ligação entre os canais nacionais e a Globo fez-me perder o contacto com este mundo. A produção nacional, com as excepções já citadas, nunca foi capaz de me prender.

É então que, passados estes anos, já estando eu na era da Netflix com todo o meu afinco, tendo publicado alguns livros e tendo-me tornado ainda mais exigente em relação às histórias, Paulo Halm e Rosane Svartman criam uma história que é capaz de me resgatar desta abstinência.

Fazem-no de uma forma tão deliciosa que merece ser citada. 

Luiz Henrique Rios (director artístico), Rosane Svartman e Paulo Halm (autores).

Bom Sucesso é o nome da telenovela da Globo que terminou no dia 24 de Janeiro. Um exame médico trocado dá origem à história de uma humilde costureira de grupo de Carnaval e de um editor literário. Este pequeno pormenor final é aquele pretendo sublinhar.

Por trás das tramas de amor e ódio, encontros e desencontros, aventuras e desventuras, os autores conseguiram fazer serviço público de alta qualidade. Alberto Prado Monteiro, a personagem de António Fagundes, dono da Editora Prado Monteiro, vive a sua vida rodeado de livros. Cada momento da sua história merece ser eternizado com as palavras de um clássico que ora cita de cor ora lê para quem o ouve com deleite.

Afinal, não é só a futilidade que vende. A telenovela bateu recordes de audiências usando passagens de livros como Dom Quixote de La Mancha, poemas de Carlos Drummond de Andrade, Fernando Pessoa, entre muito outros. 

Não eram os livros considerados por muitos algo abandonado pelo grande público? Não eram relíquias enterradas no século passado, mortos pela era digital?

Não. Halm e Svartman, bem como todos os protagonistas da novela, provam-nos com qualidade e simplicidade que podemos aprender a degustar a leitura, a apreciar as palavras que nos consolam em momentos tristes, a festejar a vida com citações de alegria e a viver por entre a sabedoria que herdámos da Literatura. Com L maiúsculo.

No fim, já não era uma simples telenovela. Era uma oportunidade de sonhar com aqueles mundos que me encantam desde criança. O público que assistiu a esta telenovela ficou, com certeza, mais culto. Aprenderam nomes de escritores que não conheciam ou relembraram passagens antes lidas. 

Deste lado do Atlântico, por entre tops de vendas comprados e futilidades repartidas entre centenas de episódios, teremos um dia coragem para criar algo que desafie as estúpidas convicções dos media ou vamos ficar à espera de ficar de novo na cauda da cultura mundial, vivendo dos êxitos do antigamente, quando ainda éramos conquistadores?

Ainda bem que descobrimos o Brasil. Podemos um dia precisar de lá voltar para (re)aprender.

Fotos: Victor Pollak/Globo

Guilherme e os Duendes

capa

Decidi escrever um novo conto de Natal. Comecei por libertar aquelas amarras com que, por vezes, tentamos recriar o realismo. Baptizei as personagens com os primeiros nomes que me surgiram e alguns são bem estranhos. Fledik, Yordik, Taldik e Uldrik. Quatro duendes, ajudantes do Pai Natal, que compõem o coro mais bonito que possam imaginar. Neste conto, cantam para Guilherme, o menino que é a estrela da história.

A capa, muito mais bonita do que aquela que eu teria idealizado, foi criada pela Filipa Cardoso.

Como o Natal não se faz sem amor ao próximo, decidi oferecer metade do valor de capa para o Instituto Português de Oncologia. Faço uso das novas tecnologias e das suas vantagens. Não há intermediários. Há apenas a vontade de ser lido e de dar.

O preço do ebook (livro em formato electrónico) é de 2€, mas o pagamento é decidido pelos leitores. Independentemente do valor que escolheres, apenas 1€ é retido para registo da obra, ISBN e para promover outras actividades relacionadas com a iniciativa.

É uma história pequenina que me deu muito gosto criar. Relê-la, aquando da revisão do texto, foi para mim uma experiência sentimental, apesar de ter sido eu a criá-la e a dar-lhe o fim que tem. O Natal também é isto: criar e sentir.

Para vocês e para o IPO, Guilherme e os Duendes.

A minha tia-avó pega os touros pelos cornos: carta a um cidadão do futuro

Caro cidadão do futuro,

Escrevo-lhe com alguma apreensão. Primeiro, porque redijo esta carta numa das línguas mais faladas do mundo, mas que devido a acordos políticos – porque de ortográficos têm pouco – pode já não lhe ser perceptível. Em caso de necessidade consulte documentação sobre línguas antigas nos seus suportes mais recentes. Deverá encontrar algo no P, de Português. Poderá estar no L. Língua Portuguesa.

Em segundo, porque não sei se este texto estará proscrito. Por não ser politicamente correcto – que é uma forma aparentemente bem intencionada de fazer o impossível que é agradar a todos – faça o favor de ler em privado. Poderá trazer-lhe problemas. Ou ataques de riso com a estupidez que grassa na minha época, para si distante.

Peço-lhe, ainda, que não julgue o meu arcaísmo. A esta data em que escrevo posso não ter tido contacto com as evoluções que são, para si, dados adquiridos, porque o meu futuro é o seu presente.

Vivo num pequeno país chamado Portugal que se situa na Europa. Espero, sinceramente, que ainda exista com toda a sua autonomia, mas nem disso estou certo, apesar de me assustar só com o facto de enunciar esta possibilidade.

Neste pequeno e tão bonito país temos características que lhe poderão suscitar alguma surpresa. Imagine que temos uma linguagem rica em ditados populares, provérbios e anedotas. No Norte, usamos uma linguagem mais vernácula. Temos uma multiplicidade de sotaques e expressões divergentes ao longo do nosso território e somos conhecidos pela nossa literatura. A nossa tradição oral trouxe até aos meus dias expressões correntes que expressam de forma alegórica intenções práticas. Alguns desses provérbios populares – é assim que lhes chamamos – incluem figuras de animais. Esopo também os tinha nas suas fábulas, com a devida ilação moral, e La Fontaine recontou algumas delas em prova da sua aplicabilidade.

Apesar da evolução que se faz sentir no nosso tempo – provavelmente ridícula em comparação com tudo a que já assistiu – os animais não falam. Exactamente por isso, nunca conversei com nenhuma tartaruga que sofresse de narcisismo por ganhar uma corrida lentamente, nem nenhuma lebre despeitada se queixou de sentir o peso do estereótipo de ser descuidada e excessivamente confiante.

Temos uma canção que fala de um gato a quem atiramos um pau. Nunca nenhum gato decidiu falar sobre ensinarmos às nossas crianças tal acto alegadamente agressivo, mas, como todos sabemos, os gatos são muito independentes e têm problemas de maior com que se preocupar.

Ora imagine só que um partido político português, com base numa campanha de uma agência internacional de defesa dos animais, quer acabar com os nossos ditados apenas porque utilizam a figura de animais. Dizem que pode incentivar ao desrespeito pelos seus direitos. Esses direitos, que realmente devem ter, são sempre proclamados por seres humanos, dado que nenhum animal se pronuncia sobre isto.

Começo a ficar preocupado com a possibilidade de cometer uma injustiça ao dizer que determinada atitude é “chorar sobre leite derramado”. Esta expressão pretende transmitir-nos a incapacidade de remediar um mal que está feito e que devemos prosseguir em frente, procurando não prender a nossa acção a algo que já não podemos mudar. E se o leite decidir que usar a sua figura é insultuoso? E se as lágrimas acharem que misturar-se com leite é indigno da sua sentimentalidade? Espero que tal não aconteça. Afinal, não sendo seres vivos não falam.

Consegue perceber a dimensão do meu problema? Há determinadas frases que não podemos dizer, mas podemos permitir que sejam ditas outras que não queremos que sejam usadas. Isto acontece num tempo em que falamos muito de liberdade de expressão, ou seja, a liberdade de dizer o que queremos. Não somos impunes a consequências, mas temos liberdade para nos exprimir e depois arcar com elas.

No tempo dos meus antepassados directos, existiam ditaduras. Nem tudo se podia dizer. Existiam polícias que perseguiam aqueles que exprimiam opiniões contraditórias sobre alguns governos. Agora podemos legalmente dizer tudo, mas não fica bem. Isto refere-se ao tal politicamente correcto que lhe citei acima.

Basicamente, ser politicamente correcto é dizer apenas aquilo que os outros querem ouvir, sempre tendo em conta que todos os outros querem ouvir coisas diferentes, quer das nossas, quer entre si. Como perceberá, há muita gente que se sente na obrigação de ficar calado. Ficam deprimidos com o facto de estarem em silêncio e alguns chegam a matar-se. Isso acaba por ser benéfico para todos, porque deixam de haver opiniões divergentes e é sempre menos um a falar mal dos animais.

Até as pessoas que trabalham o humor estão a ser alvo de algumas críticas. O que aqui me apoquenta é que o humor implica riso e, por vezes, não é bem visto rirmo-nos de desconhecidos. Eu que sempre achei que rirmo-nos da nossa própria pessoa era um princípio saudável vejo-me confrontado com alguns que são considerados loucos e que, por isso, também não se podem rir de outros.

É então que se alega que quem não se ri nem fala é maluco. Internam-se pessoas que não sabem o que é o riso ao lado daqueles que se riem de mais, sendo que a avaliação da quantidade de riso que é aceitável depende de alguém que também não sabe se pode rir ou não.

Conhece aquelas profecias do Armageddon? Aqui temos três por dia. Cada novo assunto é um cataclismo e um sinal do fim do mundo. O problema é que o mundo não acaba e no dia a seguir há mais três assuntos para acrescentar a este rol.

Às vezes tenho a sensação de que a vida na Idade Média era mais agradável, mesmo tendo consciência de que havia gente que era queimada em fogueiras e outros que levavam com a merda que era projectada livremente de algumas janelas. Nessa altura, pelo menos, o sofrimento de não poder falar nem rir acabava com o fogo e os animais não se queixavam de ver a sua merda arremessada levianamente em vez de ser usada como adubo em proveito da natureza.

Como nessa altura havia pessoas que viviam como os animais vivem no meu tempo, os animais viviam como animais.

Podia-se, sendo hábil, matar dois coelhos duma cajadada só. As porcas torciam o rabo livremente quando algo se complicava.

Tenho uma tia-avó que ainda hoje vive, linguisticamente, na Idade Média. Quando se chateia com alguém chama-lhe “traste bagageiro”. Quando alguém a afronta diz que se sente como se lhe tivessem “dado com um gato morto na cara”. Se alguém ignora a sua experiência é clara o suficiente dizendo que lhe “tiram os olhos e lhe cagam nas órbitas”. Quer os trastes bagageiros, quer os gatos e até mesmo a merda que fica nas órbitas nunca se queixaram destas alegorias da minha tia-avó. Porém, tenho receio que prendam a velhota pelas reclamações dos centros defensores dos trastes bagageiros, das ligas de apoio a gatos mortos e até das organizações para a liberdade e livre-arbítrio da merda.

Esqueci-me de lhe dizer que no nosso parlamento – uma coisa antiga para si onde as pessoas se juntam para discutir os destinos do país – existem duzentos e trinta deputados. O partido que quer matar (desculpe, revogar) os nossos provérbios só tem um.

Exactamente por isso estou a pensar criar um partido onde só a minha tia-avó seja militante. Afinal, chega um. Quando ela chegar ao parlamento vai propor legislação sobre riso grupal sobre frases hiperbólicas e alegóricas contendo figuras de animais, de forma livre e espontânea. Vamos promover campanhas de liberalização de linguagem vernácula em regime privado e público e vamos criar gabinetes de apoio a todos aqueles que gostam de ser insultados, ofendidos e de levar, figurativamente, com gatos mortos na cara. Quanto à merda deixaremos que os defensores da coprofilia façam o projecto de lei.

Despeço-me para não me alongar mais. Tenho mais pormenores a relatar-lhe que deixarei para uma carta posterior.

No caso do mundo ter evoluído de forma por mim imprevista e o meu caro cidadão do futuro ser um animal, daqueles que antes não lia cartas, as minhas desculpas. Se for uma hiena aproveite e ria-se. Existirá algum partido que defenda esse seu direito.

Os meus mais sinceros e aflitos sentimentos,

Fernando Miguel Santos

Doze de Dezembro de Dois Mil e Dezoito

Escrever

Não me lembro de um dia da minha vida em que não tenha pensado em escrever. Mesmo nos dias em que não o faço penso nisso. Quando me sinto bem adoro escrever sobre isso. Quando me sinto menos bem alivia-me relatar o que sinto.

As palavras têm mais poder do que armas. Mudam o mundo, formam pessoas, fazem de nós mais humanos do que somos. Escrever, seja o que for, é respirar.

Gosto de respirar através do Fiel Depositário, mais pessoal e íntimo, e do Pista de Aterragem, mais fresco e mais profissional. Este site é a ponte entre nós, o ponto de encontro, a encruzilhada. É onde se encontram as minhas palavras, mas também as actividades, os projectos e as aventuras.

Publicar um livro é como respirar fundo. O ar é diferente, mais duradouro, mais saboroso, mais difícil de encontrar mas mais fácil de absorver. Assim foi com o Aldeia de Luz, que faz parte de mim através dos pensamentos e sentimentos que ali estão plasmados. No Dois Maços as palavras foram formas, simetrias, jogos e afirmação. Quando o Natal Quiser é o futuro digital, a exploração da loucura, a liberdade expressiva do inconsciente menos censurado.

Se escrever é como respirar, ler é como comer. Se a cada inspiração e expiração minha tiverem o prazer de degustar o resultado terão encontrado a fonte da felicidade de um autor.