Covid-19: Beijar a cruz

Por si só, a tradição de beijar a cruz já é um atentado à saúde pública. O argumento de que a imagem que circula de boca em boca é desinfectada não serve. O dispositivo de desinfecção, seja ele qual for, não é mudado do início ao fim da actividade, não sabemos ao certo que produto é usado, não sabemos como estão as mãos de quem o transporta…

E, por favor, não venham argumentar que na vossa paróquia é diferente, porque as excepções, que eu duvido que existam, só confirmam a regra. 

Já lidei com imensos clérigos na minha vida, de várias religiões e credos, com vários tipos de atitudes. Há boas pessoas entre eles, sem dúvida, mas a maioria parece viver numa redoma de vidro. A sua fé é demonstrada com sobranceria, como se fossem donos de uma verdade que é só deles e mais ninguém tivesse direito à razão.

Assim é, também, no caso do ritual de beijar a cruz. Não sou crente, mas gostaria de perguntar a quem tem fé: acham que no meio deste caos instalado pelo Mundo era esse comportamento de risco que Deus gostaria que praticassem?

Tiremos Deus da equação, por agora. Imaginem apenas a Páscoa de todos aqueles profissionais que estiveram o dia todo equipados da cabeça aos pés. Imaginem aqueles doentes deitados de barriga para baixo, ventilados, a receber por sonda nasogástrica mililitros bem calculados de uma alimentação entérica bem diferente do vosso cabrito. Imaginem que era o vosso filho, os vossos avós, pai ou mãe. 

Quantos de vocês que transportaram uma fonte de contaminação em forma de Cristo crucificado gastaram um pouco do vosso tempo a pensar nesses profissionais e nesses doentes? Nessas pessoas que, pela força das circunstâncias, têm dificuldade em sentir a fé que sempre tiveram?

Eu não tenho, mas conheço melhor a Bíblia do que a maioria daqueles que conheço. Já a li algumas vezes. Não tenho nada contra a fé de ninguém, mas tenho tudo contra quem a quer impor a outros ou quem a pratica para além daquilo que é razoável. Por isso, se para vocês que gostam de exibir a vossa fé – ou deveria dizer crendice? – e se arriscam a contaminar um grupo de idosos apenas para manter uma tradição, vou utilizar o vosso Livro Sagrado para vos caracterizar.

Vocês são como os fariseus. Batem no peito, gravam vídeos para as redes sociais, rezam ao gritos e fazem alarde daquilo em que acreditam. Não merecem a consideração daqueles que humildemente se recolhem na sua casa. Alguns deles também rezam, mas em silêncio. Sem sair às ruas para se exibirem, rezam por aqueles que amam e por aqueles que estão a dar o corpo às balas nesta guerra já perdida para todos os que partiram. Esses merecem o meu respeito. 

Neste momento, deixem de ser fariseus. O vosso exibicionismo não condiz com as condições do mundo e é um desrespeito para a vossa fé e para todos aqueles que tentam salvar o mundo desta catástrofe. 

Rezem em casa. 

No mínimo, passem a ser Pôncio Pilatos. Terão sangue nas mãos por disseminarem uma doença, mas pelo menos estarão lavadas.

Positividade em pandemia

É difícil ser positivo quando tudo o que nos rodeia é um mundo transformado e uma escuridão que desconhecíamos. A impotência de não poder salvar toda a gente, de ver a forma negativa como evoluem alguns doentes, de não poder viver como antes….

Manter a força para continuar pode ser duro, mas temos de abrir os olhos para procurar aquilo que estamos a fazer bem, para as aprendizagens às quais estamos a ser expostos.

Não vai ficar tudo bem imediatamente. O mundo mudou e, muito provavelmente, essas mudanças serão duradouras, algumas das quais permanentes. Depois de tudo isto, precisaremos de todos para levantar uma realidade diferente daquela que tínhamos, com novos desafios e novas premissas. 

Há um dos meus textos anteriores que fala de algumas reacções negativas que tive às minhas intervenções na SIC e no Pista de Aterragem, o meu canal de YouTube. Hoje, para cumprir o conselho do directo que fiz no passado domingo, quero sublinhar aquilo que de bom me aconteceu nesta nova jornada.

As mensagens de apoio, com selfies ao lado da televisão onde apareço, são incontáveis. Família, amigos, amigos de amigos, desconhecidos… As mensagens foram sendo recebidas em catadupa, sem que eu me apercebesse da dimensão que isto tinha tomado.

Enfermeiros portugueses aqui na Suíça começaram a partilhar os meus vídeos. Um deles, de Rennaz, adicionou-me num grupo de discussão sobre temas de saúde. Um enfermeiro com cargo de chefia de Berna enviou-me algumas mensagens de apoio e partilhou alguns dos vídeos. Hoje, falamos duas vezes por vídeo chamada para trocar ideias sobre a prática clínica.

Fui apoiado por vários colegas do hospital: enfermeiros, médicos, auxiliares, secretárias, pessoal da limpeza… Recebi leite e chocolate à minha porta, mensagens a oferecer ajuda para tratar da roupa vindas de cantões distantes, chamadas de amigos que já não vejo há alguns anos e que decidiram dar-me força sem teres de passar pelas redes sociais.

Tudo isto não tem preço. Apesar de todos termos uma pequena tendência a olhar para os problemas em vez de procurar soluções, tudo isto suplanta largamente o lado negativo da exposição. 

Os agradecimentos dos familiares dos doentes que apenas recebem notícias pelo telefone é outra das sensações que me aquecem o coração. As boas acções da vizinhança do hospital, que nos aplaude todos os dias pelas 21h e se organiza para nos oferecer comida, snacks e bebidas energéticas, são uma lufada de ar fresco no meio desta abafada realidade.

Sabemos que nem todo o ser humano tem um coração decente. Apesar de devermos lutar para que todos sejam respeitados, é garantido que alguém que aproveite esse benefício o vai renunciar na hora de devolver. A justiça é uma ambição tão legítima como utópica que, deixando-se influenciar pelo medo e pela falta de inteligência, pode desvanecer-se até mínimos históricos. 

Mesmo assim, enquanto houver luz é dia. Enquanto houver união, humanismo, respeito e compaixão, somos humanos. Enquanto houver palavras de amor e admiração, palmas sentidas, ofertas dignas e agradecimentos sentidos também há espaço para sorrir.

Enquanto existirem pessoas como vocês, que fazem pender o fiel da balança para o lado mais brilhante e digno de ser pessoa, em vez de ser só gente, vale a pena lutar.

E vale a pena lutar para vos poder devolver uma palavra: obrigado.

Na Suíça, como tenho escrito e comunicado nos meus vídeos, os recursos são enormes. Nos Hospitais Universitários de Genebra, o número de camas de Cuidados Intensivos aumentou de trinta e duas para sessenta e mais tarde para oitenta. O número de intubados por Covid-19 ronda os sessenta pacientes. No Hospital de Nyon aumentamos também o número de camas para mais do dobro. Sem contar com o novo serviço que foi criado para receber doentes ventilados, onde antes havia lugar para sete doentes há agora mais uma box disponível. Todas as oitos estão ocupadas com casos de Covid-19.

Antes do surto, dependendo da carga de trabalho, podíamos ser três ou quatro enfermeiros por turno. Agora chegamos a ser seis ou sete. 

Continuamos a ter de ser comedidos no uso de material, porque a utilização multiplicou-se de forma alucinante. A Suíça tem poder económico para fazer face a estes desafios, no entanto, é a carga de trabalho aumentada que implica que se esgotem os stocks disponíveis, não apenas no hospital, que tudo faz para ter o material necessário, mas também junto dos fornecedores.

Não é por se ser um hospital regional, mais pequeno, que os desafios são diferentes. Da mesma forma que há menos camas e menos doentes, também há mais dificuldades logísticas de espaço e recrutamento, por exemplo. 

Com a antecipação da reorganização dos serviços e com a transformação de espaços ambulatórios em locais apropriados para ventilar doentes que estejam infectados com o coronavírus (ou que tenham outra patologia que necessite de ventilação mecânica), estamos preparados. 

Não é, contudo, motivo para baixar os braços e achar que tudo está feito. 

Metaforicamente, imagine-se alguém que descobre que tem de apanhar o comboio dentro de quarenta minutos. Estando ainda em casa, pode perder o comboio e sofrer as consequências do seu atraso. Assim sendo, arranja-se o mais depressa possível, acelera até à estação e acaba por chegar dez minutos antes do comboio passar. Está preparado, é certo, mas ainda tem de esperar que o comboio chegue e continua a não poder perdê-lo. 

É nessa fase que nos encontramos. Podemos esperar por uma vaga, desejando que ela não aconteça, mas sabendo que lhe podemos fazer frente dentro das nossas possibilidades. 

Nas Unidades de Cuidados Intensivos o cenário é impactante. Muitos doentes necessitam de vigilância ainda mais apertada do que aquilo que é comum. A evolução rápida da doença leva-nos a redobrar a atenção, a gerir a ventilação com mais vigilância e a posicionar muitos doentes em decúbito ventral (para podermos melhorar a relação entre a ventilação e a perfusão dos pulmões).

O pico da curva de evolução da epidemia ainda pode estar longe. As medidas para a população vão sendo tomadas de forma diferente, mais lenta do que em outros países, porque a capacidade de resposta dos serviços de saúde assim o permite.

As palmas que se ouvem diariamente, pelas quais somos agradecidos, devem continuar a ser acompanhadas pela consciência de que o afastamento social é determinante no controlo da pandemia. Aplicam-se multas de sensibilização que, segundo responsáveis políticos, têm a intenção de consciencializar os mais jovens. São multas mais baixas do que em França, por exemplo, mas é provável que venham a ser aplicadas com mais frequência. Servem, maioritariamente, para mostrar que a situação é real. 

Os horários que praticamos nos Cuidados Intensivos são mais duros. Mais horas mensais, mais colegas novos para integrar, mais cansaço ao final de cada turno. A nossa estabilidade física depende também da estabilidade dos doentes. Se eles pioram, nós pioramos. 

Tratando-se de uma guerra ingrata e cega nem sempre sabemos como o inimigo se comporta. Por isso, temos o nosso exército de profissionais de saúde preparado para as batalhas que se avizinham. 

Sabemos que não se trata de um sprint, mas sim de uma maratona. Temos de ter as forças todas unidas para que as batalhas se resolvam a nosso favor. 

O inimigo não mostrou até agora a sua máxima força, mas mesmo assim consegue tomar algumas vidas e desgastar aqueles que o combatem. Bom seria que esse momento nunca chegasse, mas quando chegar, estamos preparados. 

Talvez este seja aquele momento de silêncio que antecede uma investida, mas aqui estamos nós, de armadura esterilizada e conhecimento científico em punho, para combater esta ameaça. 

Link directo para os vídeos: https://linktr.ee/info.covid19

À hora de produção deste texto (dados do OFSP e da DGS):

Suíça – 19303 casos / 484 óbitos

Portugal- 9886 casos / 246 óbitos

Hoje, mais do que nunca, gostava que fosse tudo mentira, que tudo não passasse de uma partida típica deste dia.

Esta pandemia roubou-nos as coisas mais simples, provavelmente as mais valiosas que tínhamos. Não foi apenas a mim que o fez, foi a todos. A mim, levou-me a vida que tinha até há um mês atrás, a quietude, as inquietações corriqueiras… Mais do que isso, levou-me um amigo.

Muito embora a nossa convivência fosse esporádica tinha-se recentemente acentuado. Era daquelas presenças que damos como garantidas ao longo dos quinze anos de conhecimento. Era daquelas pessoas que consideramos um exemplo de sucesso pela forma digna e esforçada como conduziu a sua existência.

Estes são danos irreparáveis, mas temos algo a fazer contra esta enormidade pandémica que ameaça destruir os nossos laços. Temos um combate a travar, seja pela paciência, seja pela memória.

Presencio com muita regularidade a maior herança que este meu amigo podia ter deixado: os valores que transmitiu aos seus. Vejo o seu espelho no filho, de quem sou ainda mais próximo, e em quem sei que esses valores nunca se esgotarão. 

Nenhuma palavra é suficiente num momento como este. Sei que a minha vida voltará a ser parecida ao que era, mas nunca será igual. Nesse dia, em que possamos deixar de preencher as nossas cabeças com este pesadelo, teremos de levantar a cabeça e tornar-nos ainda mais fortes. Olharemos estas cicatrizes de tantas batalhas e saberemos que estamos mais profundos. Talvez possamos até deixar de ligar àquelas inquietações corriqueiras de antigamente, que agora parecem tão fúteis. 

Nesse dia, podemos ficar perdidos, sem saber o que fazer. É, então, que podemos voltar-nos para os valores que nos foram deixados, aos modelos dignos que nos foram tirados de repente e tentar fazer com que o seu exemplo seja honrado a partir da nossa memória. Sim, memória. Onde ficarão sempre o sorriso e o abraço.

Uma pandemia de estupidez

Pensei que a participação em dois programas da SIC iria facilitar as coisas. Ajudaria mais gente com mais exposição daquilo que se está a passar no país onde desempenho a minha profissão e onde há mais recursos financeiros e humanos do que em Portugal.

Contudo, não foi só isso que aconteceu. Em alguns plataformas de redes sociais começaram a surgir as críticas. 

Estava preparado para que alguém me dissesse que o meu objectivo era o protagonismo. Todos somos protagonistas da nossa vida, mas sabia que essa acusação poderia surgir. Antecipei-a até em conversa com alguns amigos. Porém, não esperava os insultos.

A incredulidade de alguns em relação aos meus alertas, somados à falta de compreensão, à falta de inteligência e à falta de bom senso deram origem a esta estranha e negativa surpresa. 

O objectivo de ajudar aqueles que falam português, seja em Portugal seja na Suíça, acabou por ficar enevoado com indecências, falta de decoro, ignorância e muita, mesmo muita, estupidez. 

Na vida, todos somos ignorantes sobre algo. Ninguém sabe tudo, nem ninguém nunca saberá tudo. Ou seja, ignorantes somos todos; estúpido só é quem quer. 

Este tipo de atitudes não me limitará nos objectivos nem nas minhas práticas. A melhor forma de responder à estupidez é lutar contra ela em silêncio, deixando que o nosso trabalho grite o que nós não dizemos. 

Este texto é uma dessas tentativas. Faz parte do alerta que tenho vindo a partilhar, pois é notório que são o medo, a ignorância e a estupidez os responsáveis por uma parte substancial do crescimento desta pandemia. 

Não quero que este texto seja partilhado. Não quero que este texto dê motivo de satisfação a quem tenta desestabilizar uma luta já de si tão ingrata. Quero que este texto seja lido por aqueles que normalmente me lêem, por aqueles que querem ser ajudados. Do resto se encarregará o tempo, porque o resto é resto e disso não passa.

Obrigado a todos pelas mensagens de apoio. Têm para mim um valor inestimável e são o combustível ideal para quem está longe daqueles que ama. 

Continuarei sempre disponível para aqueles que precisarem de mim, seja numa cama de hospital, seja pela necessidade de esclarecimento. 

Os valores que os meus pais me transmitiram e todos os livros que até hoje li ensinaram-me algo sobre as correntes contrárias: quanto maior é a oposição, mais fortes temos de ser a remar. No fim a corrente contrária passa, mas a força que entretanto desenvolvemos fica para sempre.

Covid-19: imagem de uma noite

Foto do hospital de Cremona. Copyright: PIAZZAPULITA/Reuters TV

Mais uma noite. Mais decúbitos ventrais. Sim, doentes virados de barriga para baixo, apesar de toda a parafernália que os rodeia: cabos de monitorização de ritmo cardíaco, catéter venoso central, catéter arterial, catéteres venosos periféricos, tubo endotraqueal, sistema de aspiração fechado, sonda nasogástrica, sonda vesical… À volta, várias máquinas: monitor com os parâmetros vitais, ventilador, cama articulada, colchão com alternância de pressão. Bastariam as designações para assustar um leigo.

Cinco pessoas reunem-se à volta do doente, equipadas dos pés à cabeça com equipamentos que aquecem a um ritmo maior do que a ansiedade do momento. O movimento é controlado, mas não deixa de ser uma volta de 180 graus num doente que está sedado (coma induzido), analgesiado (para não ter dor) e curarizado (com bloqueio de qualquer movimento muscular). 

Depois vem a dessincronização com o ventilador. O efeito do curarizante previne-a durante um tempo, mas não sempre. Voltam-se a mudar parâmetros ventilatórios para adaptar o doente à respiração a que o queremos obrigar.

A todo o custo, tentamos posicionar os doentes sem fazer demasiada pressão no nariz, nos olhos, nos lábios que ficam em contacto com o tubo e prevenimos as zonas de pressão que podemos. Não há decúbitos ventrais perfeitos. 

Fazemos análises regulares ao sangue arterial para conhecer a sua composição ao nível dos gazes. Analisamos o oxigénio e o dióxido de carbono e voltamos a adaptar o ventilador. Tudo isto se passa numa hora. Restam onze horas para fazer. 

Regularmente, mudamos o lado de apoio da cabeça. Massajamos o doente conforme seja possível. Entretanto o doente tosse. Aspiramos as secreções em posição desconfortável e voltamos a repetir o processo de adaptação ventilatória. 

Enquanto fazemos tudo isto, tentamos proteger-nos ao máximo. Máscara com taxa de filtração acima dos 90%, bata, luvas, touca, protector do pescoço e óculos. Evitamos contaminar determinadas zonas do ambiente que rodeia o paciente. 

Controlamos ritmo cardíaco, tensão arterial, diurese (débito urinário) e parâmetros ventilatórios com frequência horária. Isto se o doente estiver estável. Caso contrário, aumentamos a regularidade.

Ainda há medicamentos para administrar, seringas para trocar dado o ritmo a que se esgotam, perfusões para acrescentar em caso de surgirem problemas associados como uma hiperglicemia ou uma hipocaliemia (descida do potássio).

Há actos que fazem parte do nosso dia-a-dia de sempre, mas esta doença não. É nova e é irritante. Descompensa os nossos doentes com uma velocidade que não conseguimos controlar e aumenta-nos a quantidade de doentes a um nível difícil de suportar.

Passamos o turno neste equilíbrio frágil, segurando a vida de um desconhecido pelos fios que podemos. De manhã, ainda há que ter a mente clara para transmitir tudo ao colega que chega, que replicará aquilo fizemos, e para escrever algumas notas. Só partimos quando tudo fica claro para quem nos vem substituir. 

Tomamos banho no serviço, chegamos a casa e comemos qualquer coisa. Há quem se deite logo, extenuado. Há quem tenha dificuldxade em dormir. 

Há quem escreva para libertar a cabeça das imagens indeléveis que o trabalho nos imprime. 

Fernando Miguel Santos

Enfermeiro de Cuidados Intensivos

Suíça

Agora pouco importam as estatísticas, as análises, as origens da pandemia, as análises sistemáticas. Deixemos isso para quem faz ciência, para quem tem o objectivo de tirar as conclusões devidas desta inusitada e revoltante situação. 

Agora é tempo de agir. Tratar aqueles que precisam, tentar minimizar o impacto comunitário da pandemia, tentar que o Mundo possa ser de novo aquilo que gostamos o mais cedo possível…

Será pedir muito que se gaste um pouco de tempo para se ganhar em qualidade? Será que podemos prescindir de alguma qualidade de vida para dar tempo aos serviços de saúde?

Começam a aparecer nomes conhecidos nas nossas unidades, porque o Covid-19 não escolhe apenas desconhecidos. Se o deixarmos percorrer o seu caminho sem acatar os conselhos daqueles que conhecem a realidade do terreno e as provas científicas da evolução desta doença todos teremos alguém conhecido infectado. Um amigo, um pai, uma mãe, um irmão, um filho… Nesse momento, iremos lamentar o facilitismo. Aquela saída desnecessária, a corrida que é uma novidade na nossa vida, uma ida ao supermercado quando não precisamos de comprar nada ou até o aluguer de um cão para poder passear (!). 

Já não somos apenas um país. A globalização transformou o planeta numa superfície única e, neste caso, numa amostra ímpar de quão rápido pode viajar uma epidemia. 

É tempo de ter paciência, de não festejar cedo de mais as pequenas conquistas, de não fazer experiências ou demonstrar aquele rebelde latente que vive em cada um de nós. 

É tempo de esperar, cumprir e ter esperança. 

Para mim, agora, é tempo de dormir. Daqui a pouco há mais. 

Fernando Miguel Santos

Enfermeiro de Cuidados Intensivos

Suíça

Covid-19: um outro Mundo

Nunca imaginei uma situação assim. Digna de ficção, sem dúvida, mas ultrapassando todos os conceitos pré-adquiridos que temos, aquilo que damos como garantido e aquilo que, eventualmente, ignoramos enquanto benefícios reais nas nossas vidas.

Estava em formação no Hospital Universitário de Genebra quando a má notícia se abateu sobre nós. As projecções indicavam que a Suíça seria atingida pela pandemia de uma forma que não tínhamos podido antecipar. 

O mundo deu várias voltas na minha cabeça. Os planos estabelecidos para os próximos meses, a intenção de me aperfeiçoar enquanto profissional através de treino intensivo, as aulas, as simulações, tudo isso tinha sido cancelado. Necessitavam de todo o pessoal disponível para combater um inimigo silencioso, rápido e forte.

Voltamos todos a ser integrados nos nossos hospitais e nas nossas equipas. Estabeleceram-se planos de contingência, horários cujas planificações possíveis se aproximam da loucura e contratações apressadas de novos enfermeiros.

Um outro Mundo

Hoje, duas semanas depois, o meu serviço está completamente transfigurado. Como o Mundo. Todas as nossas camas estão ocupadas por doentes infectados com o Covid-19, intubados, a desenvolver ARDS (acute respiratory distress syndrome, ou seja, uma inflamação generalizada do pulmão consequente à infecção e à pneumonia bilateral associada) a uma velocidade estonteante. Alguns são obesos e temos de os posicionar em decúbito ventral, ou seja, de barriga para baixo. 

Cinco ou seis pessoas são solicitadas a fazer esse trabalho, mas a força nem sempre chega. Demorámos cerca de uma hora em todo o procedimento.

A ventilação dos doentes é extremamente difícil. A acumulação de líquido nos pulmões e o aumento drástico da resistência associado à diminuição da compliance (medidas físicas que demonstram a incapacidade do pulmão de se distender) impedem o volume de ar pretendido de entrar. A fracção de oxigénio tem de ser aumentada e as trocas gasosas entre o pulmão e a corrente sanguínea diminuem. 

É verdade que isto acontece com algumas gripes. Acontece com vários tipos de pneumonia. E continua a acontecer. Esse é o problema. O Covid-19 não veio substituir as outras doenças, veio acrescentar um problema de gestão de camas de Cuidados Intensivos através dos seus inexoráveis avanços e da rapidez de deterioração dos estados clínicos dos doentes. 

O nosso serviço é hoje considerado zona contaminada. Não entra ninguém externo ao serviço e para entrarmos na mesma porta de sempre temos de mudar de farda e acrescentar batas descartáveis, touca, óculos de protecção estanques e máscaras de altura filtração (FFP2, pelo menos).

Senti necessidade de ajudar para além do meu trabalho com os doentes. A população tem de ser alertada por vozes que estão no terreno, não apenas por analistas distanciados da realidade ou pelos habituais responsáveis que ocupam um gabinete. 

Decidi usar o meu canal de Youtube, outrora destinado a falar sobre viagens, empreendedorismo e a combater a falta de literacia financeira, decorado com alguns momentos de humor e actividades lúdicas, ao combate às fake news e à circulação de falsos testemunhos e inacreditáveis panaceias universais.

Recursos limitados

Penso muito na análise comparativa entre Portugal e a Suíça que fiz no primeiro vídeo. Estava extremamente cansado e irritado, mas sabia que, ainda assim, estava num meio privilegiado em relação ao meu país. 

Em Portugal há imensas falhas de material no quotidiano, mesmo sem que haja ameaças de pandemia. Algumas histórias são públicas, outras circulam apenas nos corredores de cada hospital. O que é certo é que nem todos os portugueses vivem ao lado do São João ou do Santa Maria. Muitos portugueses não vivem próximos de hospitais que tenham condições logísticas para combater este desafio. Imensos enfermeiros e restantes profissionais de saúde são expostos à pandemia sem condições de se defenderem adequadamente. 

A Suíça é um país rico. Tem reservas de emergência e planos de contingência próprios de quem viveu ao lado das duas Grandes Guerras. Mesmo assim, temos de racionar o material e esperar encomendas inimagináveis que nunca chegam na hora que mais gostaríamos. 

Temos as equipas de ética a decidir quem será intubado. Os protocolos de medicina de catástrofe foram assumidos pelo director geral e pelo director clínico, ficando claro que há doentes que não terão a oportunidade que antes teriam. 

Isto acontece devido à enorme quantidade de casos que aparecem todos os dias. Os hospitais cantonais, mais expostos mas com mais recursos, quase triplicaram as camas de terapia intensiva. Os hospitais mais periféricos duplicaram. Ainda assim, todas essas camas não chegam. Os ventiladores disponíveis não são suficientes. Os recursos humanos estão a esgotar-se, quer pelo contágio, quer pelo cansaço extremo, sendo este o maior do problemas que vamos enfrentar. Sem cuidadores não há capacidade de tratamento. Os ventiladores não ventilam sozinhos.

Tudo isto, num país que tem capacidade de subir o rácio enfermeiro/doente de 1:1 com grande reactividade. Em Portugal isso será extremamente difícil.

E se dedicados a um doente que tem de fazer decúbito ventral, com exigência de vigilância permanente, com colegas novos para integrar na equipa, acabamos os nossos turnos desfeitos entre o cansaço e a sensação de que o fim de tudo isto está longe, que será dos profissionais em Portugal?

Fiquem em casa. A vossa protecção é a nossa protecção. A vossa consciência no isolamento social é parte fundamental na atenuação da curva de contágio. Só assim será possível tratar os doentes críticos, voltar a tratar os doentes de todas as outras patologias sem risco de contágio e voltar à vida normal que todos ansiamos e que agora parece digna de um sonho.

Obrigado a todos os que são cumpridores. Vamos vencer, mas antes vamos ter de lutar muito.

Fernando Miguel Santos

Enfermeiro de Cuidados Intensivos

Suíça

Quando voltamos somos outros

Texto originalmente publicado no blog Eu Sim Tu Não, a 18 de Dezembro 2008, dedicado pelas criadoras do blog aos profissionais do INEM falecidos na sua derradeira viagem ao serviço do nosso país.

Cada viagem é uma partida. Cada partida é uma expectativa, como é um abandono. Há quem fique.

Um caminho não se faz sem uma partida, mesmo que não mudemos de lugar. É um pagamento que temos de fazer, mesmo que não seja literal. Temos de trocar algo pela oportunidade de ver mais mundo. Só então nos é retribuído.

A viagem mostra-se, mas é de dentro. A partida é feita muito antes de partir. Somos já outro quando decidimos que partimos. Porque partir também é separar.

Partir é sempre separar. Separarmos cacos de objectos, separarmos fatias de bolos, separamos ligações afectivas. É esse o acto de partir.

Assim como conseguimos individualizar partes de objectos é através da partida que nos individualizamos.

Curiosamente, a retribuição não aparece se não estivermos abertos. Passa por nós e não a vemos, que é o mesmo que não passar por nós. Precisamos de estar partidos, mais abertos do que a abertura que normalmente somos e eis que algo nos congrega. É a retribuição. Então, deixamos de estar partimos e ficamos novamente prontos a partir.

Às vezes temos de nos justificar decisões pessoais até que a repetição soe a razão. É assim quando mudamos de país, quando mudamos de emprego, quando escolhemos fazer um caminho que é estranho.

Olhamos por nós, mas olhamos pelos outros. Não precisamos de partir para longe para ser longe de mais. Pode ser apenas aquele velar nocturno que oferecemos ao outro, pode ser a singela vigilância, pode ser apenas um toque.

Partimos dos nossos para os que passarão a ser nossos. Não exigimos estar inteiros.

Quando voltamos somos outros, porque da mesma forma que partimos daqui, partimos de lá, e mais peso menos peso, o que custa é partir.

Uma jornada só o é porque sabemos que há uma força que nos atrai. É ela que vence a inércia de não mexer nenhum músculo. É uma atracção que nada tem que ver com destino. Tem que ver com missão.

Quando partimos é de mãos dadas connosco. O medo é breu, mas o coração é lanterna. Em cada viagem, sabemos que um dia aquele será o nosso leito. Também vamos querer que haja alguém partido à cabeceira.

Fernando Miguel Santos

Viagem

Texto publicado originalmente no projecto Arcádia XXI a 21 de Abril de 2008

Outrora a viagem era um luxo. Hoje é algo que se começa a tornar comum. Os preços baixam, os passageiros aumentam, nem sempre na mesma proporção, mas de uma forma que em muito democratizou o acto de viajar. Democratizou?

Entro no avião e vejo gente que não imaginei que existisse dentro de um. Gente de todos os estratos sociais. Isso agrada-me. Já não é preciso emigrar de carro, com a casa amarrada no tejadilho com uma corda atada em cruz e presa aos ferros da carrinha. Já não é preciso esperar três ou quatro dias, talvez cinco, a mandar calar os filhos, a mandar «estes condutores estrangeiros à merda», para chegar a França. 

Paris já não tem de sentir o suor da chegada desse imigrante. Sim, imigrante. Bem-ditos sejam para o país que os acolhe. Bem-ditos os que não esquecem o país nem se enchem de grandeza. Que fariam os patrões para quem eles chapam massa nas obras se os vissem ao volante do BMW serie 7 com que passam a fronteira de Portugal? Rir-se-iam depois de verem o porta-chaves da Rent-a-car preso à chave?

Não. Não democratizou. Há ainda objectivos diferentes. É possível ter dois turistas, que passam o mesmo tempo na mesma cidade, visitando os mesmos monumentos à mesma hora. As experiências são iguais, os momentos idênticos e ainda assim as recordações, o proveito e a utilidade são diferentes. Um chegará a casa e dirá que gostou. O outro chorará o regresso.

Chego a casa e choro o regresso. Da próxima, prometo, fico lá mais tempo. É sempre assim. Um regresso penoso que me leva a querer ficar, a não querer deixar para trás aquilo que sinto ser meu. As cores são diferentes, os cheiros mais intensos. Talvez seja só esta película que me embota os olhos.

A próxima vez. É sempre nisso que se pensa quando se regressa, não é? E porque não concentrarmo-nos no gozo que nos deu esta, primeiro. Porquê a pressa? Porquê? 

Ainda ninguém percebeu que deixar passar estas coisas é como foder e acordar de manhã sem se lembrar? Ninguém entende que, se aquilo que se come tem de ser digerido, também aquilo que se vê merece uma digna reflexão?

Reflexão? Bonito é sentir! A sensação de poder fazer o que se quer, a liberdade feita, perfeita, como só ela consegue ser, sem inibições, impedimentos, coisas com que se preocupar. Que raio de palavra é essa, reflectir? Sonhar sim, agora reflectir?

Que a reflexão se torne um sonho. Que assim seja. Mas deixar tudo num limbo de perdição, ver, passar, andar com o passo fustigado por uma pressa que não se pode mudar, é pior do que não percorrer. Deixar que as coisas se traduzam num simples «fui» e não se reúnam num completo «foi», numa descrição silenciosa que só o olhar expressa…

Há quem mostre, assim, não merecer.

Sim, é verdade. Agora vamos?

Vamos.

Fernando Miguel Santos