Quis o acaso que o meu mais do que raro zapping me levasse a ver o último jogo de Federer em directo. Não tenho por hábito passar os canais em busca de algo interessante, dirigindo-me directamente às plataformas de streaming. (Também não tenho por hábito recorrer a anglicismos e eis dois para provarem a validade empírica duma excepção.)
O jogo foi agradável e bem jogado, com detalhes dignos dos jogadores que representavam ambos os lados. Com as emoções à flor da pele, no final, Federer chorou. A ele se juntou um dos seus maiores rivais (e amigo, que isto de competição não implica animosidade). Nadal também chorou, deu a mão a Federer, abraçou-o.
Ironicamente, tudo isto aconteceu no mesmo ano em que a seguradora suíça Helsana fez um estudo que concluiu que três em cada quatro pessoas acha inconveniente chorar em público (os resultados seriam bem diferentes se estudados os nossos convidados de casamento).
Estamos para lá do domínio da rídicula expressão sobre os homens que não choram. Achar que exprimir uma emoção forte (e são essas que, positivas ou negativas, provocam choro) é inconveniente é, ao meus olhos, triste.
Quem me conhece sabe que choro. Quem esteve num lançamento de um livro, no pedido de casamento sabe que choro. Quem me viu chorar compulsivamente no casamento não deverá esquecê-lo tão cedo. Não tenho qualquer problema em chorar em público e choro mais de alegria do que de tristeza.
Percebo bem as lágrimas de Federer, o tenista que mais aprecio. São lágrimas expectáveis. Lágrimas de quem se despede da sua paixão, da profissão que o elevou ao patamar de ícone mundial, dos courts onde teve oportunidade de se mostrar um dos mais elegantes desportistas de que há memória. São lágrimas muito sentidas.
Já as de Nadal, para além de sentidas, são lágrimas bonitas. São prova de sensibilidade altruista, de amizade que ladeia a competitividade que ambos estimularam. São menos expectáveis e, por isso, são lágrimas que merecem ser relembradas e, para bem do mundo, ensinadas. E se as lágrimas não se aprendem como uma materia escolar que sejam mediadas pela normalização e pelos exemplos de sensibilidade.
É isso que aqui faço, gravando-as neste espaço, porque nunca é demais recordarmos o que faz de nós mais humanos.


