O Freud Explica

Estabeleci um paralelismo entre Leicester e Rio Tinto. Se na primeira nasceu o dramaturgo que cunhou, com o seu nome, um novo adjectivo, na segunda nasceu o homem que maquilhou a face de uma das mais honrosas tradições portuguesas, a anedota. Não se conheceram porque o primeiro partiu antes do segundo nascer, mas estão indelevelmente unidos. Joe Orton vive para sempre na sua herança dramatúrgica e Fernando Rocha ressuscitou sempre das mortes artísticas que lhe anunciaram. Da união e de ambos os factos é prova – se necessária fosse – a peça a que assistimos no Teatro Armando Cortez no dia 18. E se introduzir este texto assim parece loucura, talvez o Freud explique.

Dentro de um consultório, um psiquiatra tenta seduzir a candidata a secretária, mas, logo após convencê-la a despir-se, é interrompido pela esposa. Depois, por outro psiquiatra que vem vistoriar-lhe o consultório. Depois, pelas infidelidades da sua mulher. Depois, pelo paquete do hotel com quem a mulher o traiu… Numa sucessão de encruzilhadas e de opções que se revelerão ruinosas para o seu libidinoso segredo, o psiquiatra vê-se envolvido numa loucura em crescendo. O consultório transforma-se num imenso téléphone arabe, onde o que a um é dito nem sempre corresponde ao que este efectivamente ouve, onde os egos se atropelam em conclusões precipitadas, que escalam a problemática que tem tanto de cómico como de negro. Difícil de imaginar? Daí o adjectivo ortonesque.

What The Butler Saw (Orton, 1969) é uma história que, apesar da loucura, parece possível. Caricatura ambições, joga com a humana mania da precipitação, brinca com a vergonha (das personagens e do público) e pode, em alguns, suscitar a dúvida da insanidade. 

A adaptação da Tenda Produções, O Freud Explica, encenada por Hélder Gamboa, traz a narrativa ainda para mais perto de nós. As referências passam a ser portuguesas – substitui-se os genitais de Churchill pelos do General Humberto Delgado, por exemplo – e alternam-se momentos de profundidade dramática do texto com vívidas menções da nossa realidade. E de Rio Tinto, claro.

O ritmo de Heitor Lourenço, no papel do médico que fica feliz a cada desvio de sanidade que para si é material de estudo e produção académica, é prodigioso ao ponto de gerar fortes gargalhadas no público e sorrisos entre os colegas. Ângela Pinto dá vida à esposa promíscua, preenchendo divertidamente uma palete de registos, desde o dengoso ao histriónico. Mário Bomba é o polícia que, apesar dos seus eloquentes esforços para se manter à tona da loucura, não escapa a um vestido feminino (e armas perdidas).

Se a estes nomes se associa mais instaneamente o teatro, guardo para o fim os restantes para que os sublinhe, para que desconstrua algumas ideias sobre eles. A energia e a colocação da voz de Sofia Arruda no desempenho de um papel que tem muito de físico e de expressivo -parece-me mais difícil fazer rir pela inocência do que pela loucura – afasta qualquer estereótipo que lhe possa ser associado. João Mota prova, com o seu desempenho, que as carreiras não são como começam, são como continuam. Fernando Rocha, cujo norte na pronúncia me faz sentir família, faz do Dr. Correia mais uma confirmação de que o milagre da multiplicação também existe na competência artística.

O Freud Explica é uma peça com um texto genial, bem adaptado, que merece ser vista. Contém sugestões de nudez, tiros, loucos, batas brancas, flores, sapatos, traição, cortes de cabelo, camisas de forças, mais loucos, incesto, um final feliz e, claro, Rio Tinto. Sim, valha-nos o Freud.

O Freud Explica

Teatro Armando Cortez, 18 de Outubro de 2022

Produção: Tenda Produções

Encenação: Hélder Gamboa

Representação: Ângela Pinto, Fernando Rocha, Heitor Lourenço, Mário Bomba, João Mota e Sofia Arruda

Author: Fernando Miguel Santos