Quem dera que tudo fosse mentira

Hoje, mais do que nunca, gostava que fosse tudo mentira, que tudo não passasse de uma partida típica deste dia.

Esta pandemia roubou-nos as coisas mais simples, provavelmente as mais valiosas que tínhamos. Não foi apenas a mim que o fez, foi a todos. A mim, levou-me a vida que tinha até há um mês atrás, a quietude, as inquietações corriqueiras… Mais do que isso, levou-me um amigo.

Muito embora a nossa convivência fosse esporádica tinha-se recentemente acentuado. Era daquelas presenças que damos como garantidas ao longo dos quinze anos de conhecimento. Era daquelas pessoas que consideramos um exemplo de sucesso pela forma digna e esforçada como conduziu a sua existência.

Estes são danos irreparáveis, mas temos algo a fazer contra esta enormidade pandémica que ameaça destruir os nossos laços. Temos um combate a travar, seja pela paciência, seja pela memória.

Presencio com muita regularidade a maior herança que este meu amigo podia ter deixado: os valores que transmitiu aos seus. Vejo o seu espelho no filho, de quem sou ainda mais próximo, e em quem sei que esses valores nunca se esgotarão. 

Nenhuma palavra é suficiente num momento como este. Sei que a minha vida voltará a ser parecida ao que era, mas nunca será igual. Nesse dia, em que possamos deixar de preencher as nossas cabeças com este pesadelo, teremos de levantar a cabeça e tornar-nos ainda mais fortes. Olharemos estas cicatrizes de tantas batalhas e saberemos que estamos mais profundos. Talvez possamos até deixar de ligar àquelas inquietações corriqueiras de antigamente, que agora parecem tão fúteis. 

Nesse dia, podemos ficar perdidos, sem saber o que fazer. É, então, que podemos voltar-nos para os valores que nos foram deixados, aos modelos dignos que nos foram tirados de repente e tentar fazer com que o seu exemplo seja honrado a partir da nossa memória. Sim, memória. Onde ficarão sempre o sorriso e o abraço.

Uma pandemia de estupidez

Pensei que a participação em dois programas da SIC iria facilitar as coisas. Ajudaria mais gente com mais exposição daquilo que se está a passar no país onde desempenho a minha profissão e onde há mais recursos financeiros e humanos do que em Portugal.

Contudo, não foi só isso que aconteceu. Em alguns plataformas de redes sociais começaram a surgir as críticas. 

Estava preparado para que alguém me dissesse que o meu objectivo era o protagonismo. Todos somos protagonistas da nossa vida, mas sabia que essa acusação poderia surgir. Antecipei-a até em conversa com alguns amigos. Porém, não esperava os insultos.

A incredulidade de alguns em relação aos meus alertas, somados à falta de compreensão, à falta de inteligência e à falta de bom senso deram origem a esta estranha e negativa surpresa. 

O objectivo de ajudar aqueles que falam português, seja em Portugal seja na Suíça, acabou por ficar enevoado com indecências, falta de decoro, ignorância e muita, mesmo muita, estupidez. 

Na vida, todos somos ignorantes sobre algo. Ninguém sabe tudo, nem ninguém nunca saberá tudo. Ou seja, ignorantes somos todos; estúpido só é quem quer. 

Este tipo de atitudes não me limitará nos objectivos nem nas minhas práticas. A melhor forma de responder à estupidez é lutar contra ela em silêncio, deixando que o nosso trabalho grite o que nós não dizemos. 

Este texto é uma dessas tentativas. Faz parte do alerta que tenho vindo a partilhar, pois é notório que são o medo, a ignorância e a estupidez os responsáveis por uma parte substancial do crescimento desta pandemia. 

Não quero que este texto seja partilhado. Não quero que este texto dê motivo de satisfação a quem tenta desestabilizar uma luta já de si tão ingrata. Quero que este texto seja lido por aqueles que normalmente me lêem, por aqueles que querem ser ajudados. Do resto se encarregará o tempo, porque o resto é resto e disso não passa.

Obrigado a todos pelas mensagens de apoio. Têm para mim um valor inestimável e são o combustível ideal para quem está longe daqueles que ama. 

Continuarei sempre disponível para aqueles que precisarem de mim, seja numa cama de hospital, seja pela necessidade de esclarecimento. 

Os valores que os meus pais me transmitiram e todos os livros que até hoje li ensinaram-me algo sobre as correntes contrárias: quanto maior é a oposição, mais fortes temos de ser a remar. No fim a corrente contrária passa, mas a força que entretanto desenvolvemos fica para sempre.

Covid-19: imagem de uma noite

Foto do hospital de Cremona. Copyright: PIAZZAPULITA/Reuters TV

Mais uma noite. Mais decúbitos ventrais. Sim, doentes virados de barriga para baixo, apesar de toda a parafernália que os rodeia: cabos de monitorização de ritmo cardíaco, catéter venoso central, catéter arterial, catéteres venosos periféricos, tubo endotraqueal, sistema de aspiração fechado, sonda nasogástrica, sonda vesical… À volta, várias máquinas: monitor com os parâmetros vitais, ventilador, cama articulada, colchão com alternância de pressão. Bastariam as designações para assustar um leigo.

Cinco pessoas reunem-se à volta do doente, equipadas dos pés à cabeça com equipamentos que aquecem a um ritmo maior do que a ansiedade do momento. O movimento é controlado, mas não deixa de ser uma volta de 180 graus num doente que está sedado (coma induzido), analgesiado (para não ter dor) e curarizado (com bloqueio de qualquer movimento muscular). 

Depois vem a dessincronização com o ventilador. O efeito do curarizante previne-a durante um tempo, mas não sempre. Voltam-se a mudar parâmetros ventilatórios para adaptar o doente à respiração a que o queremos obrigar.

A todo o custo, tentamos posicionar os doentes sem fazer demasiada pressão no nariz, nos olhos, nos lábios que ficam em contacto com o tubo e prevenimos as zonas de pressão que podemos. Não há decúbitos ventrais perfeitos. 

Fazemos análises regulares ao sangue arterial para conhecer a sua composição ao nível dos gazes. Analisamos o oxigénio e o dióxido de carbono e voltamos a adaptar o ventilador. Tudo isto se passa numa hora. Restam onze horas para fazer. 

Regularmente, mudamos o lado de apoio da cabeça. Massajamos o doente conforme seja possível. Entretanto o doente tosse. Aspiramos as secreções em posição desconfortável e voltamos a repetir o processo de adaptação ventilatória. 

Enquanto fazemos tudo isto, tentamos proteger-nos ao máximo. Máscara com taxa de filtração acima dos 90%, bata, luvas, touca, protector do pescoço e óculos. Evitamos contaminar determinadas zonas do ambiente que rodeia o paciente. 

Controlamos ritmo cardíaco, tensão arterial, diurese (débito urinário) e parâmetros ventilatórios com frequência horária. Isto se o doente estiver estável. Caso contrário, aumentamos a regularidade.

Ainda há medicamentos para administrar, seringas para trocar dado o ritmo a que se esgotam, perfusões para acrescentar em caso de surgirem problemas associados como uma hiperglicemia ou uma hipocaliemia (descida do potássio).

Há actos que fazem parte do nosso dia-a-dia de sempre, mas esta doença não. É nova e é irritante. Descompensa os nossos doentes com uma velocidade que não conseguimos controlar e aumenta-nos a quantidade de doentes a um nível difícil de suportar.

Passamos o turno neste equilíbrio frágil, segurando a vida de um desconhecido pelos fios que podemos. De manhã, ainda há que ter a mente clara para transmitir tudo ao colega que chega, que replicará aquilo fizemos, e para escrever algumas notas. Só partimos quando tudo fica claro para quem nos vem substituir. 

Tomamos banho no serviço, chegamos a casa e comemos qualquer coisa. Há quem se deite logo, extenuado. Há quem tenha dificuldxade em dormir. 

Há quem escreva para libertar a cabeça das imagens indeléveis que o trabalho nos imprime. 

Fernando Miguel Santos

Enfermeiro de Cuidados Intensivos

Suíça

Covid-19: Tempo de esperar e cumprir

Agora pouco importam as estatísticas, as análises, as origens da pandemia, as análises sistemáticas. Deixemos isso para quem faz ciência, para quem tem o objectivo de tirar as conclusões devidas desta inusitada e revoltante situação. 

Agora é tempo de agir. Tratar aqueles que precisam, tentar minimizar o impacto comunitário da pandemia, tentar que o Mundo possa ser de novo aquilo que gostamos o mais cedo possível…

Será pedir muito que se gaste um pouco de tempo para se ganhar em qualidade? Será que podemos prescindir de alguma qualidade de vida para dar tempo aos serviços de saúde?

Começam a aparecer nomes conhecidos nas nossas unidades, porque o Covid-19 não escolhe apenas desconhecidos. Se o deixarmos percorrer o seu caminho sem acatar os conselhos daqueles que conhecem a realidade do terreno e as provas científicas da evolução desta doença todos teremos alguém conhecido infectado. Um amigo, um pai, uma mãe, um irmão, um filho… Nesse momento, iremos lamentar o facilitismo. Aquela saída desnecessária, a corrida que é uma novidade na nossa vida, uma ida ao supermercado quando não precisamos de comprar nada ou até o aluguer de um cão para poder passear (!). 

Já não somos apenas um país. A globalização transformou o planeta numa superfície única e, neste caso, numa amostra ímpar de quão rápido pode viajar uma epidemia. 

É tempo de ter paciência, de não festejar cedo de mais as pequenas conquistas, de não fazer experiências ou demonstrar aquele rebelde latente que vive em cada um de nós. 

É tempo de esperar, cumprir e ter esperança. 

Para mim, agora, é tempo de dormir. Daqui a pouco há mais. 

Fernando Miguel Santos

Enfermeiro de Cuidados Intensivos

Suíça

Covid-19: um outro Mundo

Nunca imaginei uma situação assim. Digna de ficção, sem dúvida, mas ultrapassando todos os conceitos pré-adquiridos que temos, aquilo que damos como garantido e aquilo que, eventualmente, ignoramos enquanto benefícios reais nas nossas vidas.

Estava em formação no Hospital Universitário de Genebra quando a má notícia se abateu sobre nós. As projecções indicavam que a Suíça seria atingida pela pandemia de uma forma que não tínhamos podido antecipar. 

O mundo deu várias voltas na minha cabeça. Os planos estabelecidos para os próximos meses, a intenção de me aperfeiçoar enquanto profissional através de treino intensivo, as aulas, as simulações, tudo isso tinha sido cancelado. Necessitavam de todo o pessoal disponível para combater um inimigo silencioso, rápido e forte.

Voltamos todos a ser integrados nos nossos hospitais e nas nossas equipas. Estabeleceram-se planos de contingência, horários cujas planificações possíveis se aproximam da loucura e contratações apressadas de novos enfermeiros.

Um outro Mundo

Hoje, duas semanas depois, o meu serviço está completamente transfigurado. Como o Mundo. Todas as nossas camas estão ocupadas por doentes infectados com o Covid-19, intubados, a desenvolver ARDS (acute respiratory distress syndrome, ou seja, uma inflamação generalizada do pulmão consequente à infecção e à pneumonia bilateral associada) a uma velocidade estonteante. Alguns são obesos e temos de os posicionar em decúbito ventral, ou seja, de barriga para baixo. 

Cinco ou seis pessoas são solicitadas a fazer esse trabalho, mas a força nem sempre chega. Demorámos cerca de uma hora em todo o procedimento.

A ventilação dos doentes é extremamente difícil. A acumulação de líquido nos pulmões e o aumento drástico da resistência associado à diminuição da compliance (medidas físicas que demonstram a incapacidade do pulmão de se distender) impedem o volume de ar pretendido de entrar. A fracção de oxigénio tem de ser aumentada e as trocas gasosas entre o pulmão e a corrente sanguínea diminuem. 

É verdade que isto acontece com algumas gripes. Acontece com vários tipos de pneumonia. E continua a acontecer. Esse é o problema. O Covid-19 não veio substituir as outras doenças, veio acrescentar um problema de gestão de camas de Cuidados Intensivos através dos seus inexoráveis avanços e da rapidez de deterioração dos estados clínicos dos doentes. 

O nosso serviço é hoje considerado zona contaminada. Não entra ninguém externo ao serviço e para entrarmos na mesma porta de sempre temos de mudar de farda e acrescentar batas descartáveis, touca, óculos de protecção estanques e máscaras de altura filtração (FFP2, pelo menos).

Senti necessidade de ajudar para além do meu trabalho com os doentes. A população tem de ser alertada por vozes que estão no terreno, não apenas por analistas distanciados da realidade ou pelos habituais responsáveis que ocupam um gabinete. 

Decidi usar o meu canal de Youtube, outrora destinado a falar sobre viagens, empreendedorismo e a combater a falta de literacia financeira, decorado com alguns momentos de humor e actividades lúdicas, ao combate às fake news e à circulação de falsos testemunhos e inacreditáveis panaceias universais.

Recursos limitados

Penso muito na análise comparativa entre Portugal e a Suíça que fiz no primeiro vídeo. Estava extremamente cansado e irritado, mas sabia que, ainda assim, estava num meio privilegiado em relação ao meu país. 

Em Portugal há imensas falhas de material no quotidiano, mesmo sem que haja ameaças de pandemia. Algumas histórias são públicas, outras circulam apenas nos corredores de cada hospital. O que é certo é que nem todos os portugueses vivem ao lado do São João ou do Santa Maria. Muitos portugueses não vivem próximos de hospitais que tenham condições logísticas para combater este desafio. Imensos enfermeiros e restantes profissionais de saúde são expostos à pandemia sem condições de se defenderem adequadamente. 

A Suíça é um país rico. Tem reservas de emergência e planos de contingência próprios de quem viveu ao lado das duas Grandes Guerras. Mesmo assim, temos de racionar o material e esperar encomendas inimagináveis que nunca chegam na hora que mais gostaríamos. 

Temos as equipas de ética a decidir quem será intubado. Os protocolos de medicina de catástrofe foram assumidos pelo director geral e pelo director clínico, ficando claro que há doentes que não terão a oportunidade que antes teriam. 

Isto acontece devido à enorme quantidade de casos que aparecem todos os dias. Os hospitais cantonais, mais expostos mas com mais recursos, quase triplicaram as camas de terapia intensiva. Os hospitais mais periféricos duplicaram. Ainda assim, todas essas camas não chegam. Os ventiladores disponíveis não são suficientes. Os recursos humanos estão a esgotar-se, quer pelo contágio, quer pelo cansaço extremo, sendo este o maior do problemas que vamos enfrentar. Sem cuidadores não há capacidade de tratamento. Os ventiladores não ventilam sozinhos.

Tudo isto, num país que tem capacidade de subir o rácio enfermeiro/doente de 1:1 com grande reactividade. Em Portugal isso será extremamente difícil.

E se dedicados a um doente que tem de fazer decúbito ventral, com exigência de vigilância permanente, com colegas novos para integrar na equipa, acabamos os nossos turnos desfeitos entre o cansaço e a sensação de que o fim de tudo isto está longe, que será dos profissionais em Portugal?

Fiquem em casa. A vossa protecção é a nossa protecção. A vossa consciência no isolamento social é parte fundamental na atenuação da curva de contágio. Só assim será possível tratar os doentes críticos, voltar a tratar os doentes de todas as outras patologias sem risco de contágio e voltar à vida normal que todos ansiamos e que agora parece digna de um sonho.

Obrigado a todos os que são cumpridores. Vamos vencer, mas antes vamos ter de lutar muito.

Fernando Miguel Santos

Enfermeiro de Cuidados Intensivos

Suíça

Quando voltamos somos outros

Texto originalmente publicado no blog Eu Sim Tu Não, a 18 de Dezembro 2008, dedicado pelas criadoras do blog aos profissionais do INEM falecidos na sua derradeira viagem ao serviço do nosso país.

Cada viagem é uma partida. Cada partida é uma expectativa, como é um abandono. Há quem fique.

Um caminho não se faz sem uma partida, mesmo que não mudemos de lugar. É um pagamento que temos de fazer, mesmo que não seja literal. Temos de trocar algo pela oportunidade de ver mais mundo. Só então nos é retribuído.

A viagem mostra-se, mas é de dentro. A partida é feita muito antes de partir. Somos já outro quando decidimos que partimos. Porque partir também é separar.

Partir é sempre separar. Separarmos cacos de objectos, separarmos fatias de bolos, separamos ligações afectivas. É esse o acto de partir.

Assim como conseguimos individualizar partes de objectos é através da partida que nos individualizamos.

Curiosamente, a retribuição não aparece se não estivermos abertos. Passa por nós e não a vemos, que é o mesmo que não passar por nós. Precisamos de estar partidos, mais abertos do que a abertura que normalmente somos e eis que algo nos congrega. É a retribuição. Então, deixamos de estar partimos e ficamos novamente prontos a partir.

Às vezes temos de nos justificar decisões pessoais até que a repetição soe a razão. É assim quando mudamos de país, quando mudamos de emprego, quando escolhemos fazer um caminho que é estranho.

Olhamos por nós, mas olhamos pelos outros. Não precisamos de partir para longe para ser longe de mais. Pode ser apenas aquele velar nocturno que oferecemos ao outro, pode ser a singela vigilância, pode ser apenas um toque.

Partimos dos nossos para os que passarão a ser nossos. Não exigimos estar inteiros.

Quando voltamos somos outros, porque da mesma forma que partimos daqui, partimos de lá, e mais peso menos peso, o que custa é partir.

Uma jornada só o é porque sabemos que há uma força que nos atrai. É ela que vence a inércia de não mexer nenhum músculo. É uma atracção que nada tem que ver com destino. Tem que ver com missão.

Quando partimos é de mãos dadas connosco. O medo é breu, mas o coração é lanterna. Em cada viagem, sabemos que um dia aquele será o nosso leito. Também vamos querer que haja alguém partido à cabeceira.

Fernando Miguel Santos

Viagem

Texto publicado originalmente no projecto Arcádia XXI a 21 de Abril de 2008

Outrora a viagem era um luxo. Hoje é algo que se começa a tornar comum. Os preços baixam, os passageiros aumentam, nem sempre na mesma proporção, mas de uma forma que em muito democratizou o acto de viajar. Democratizou?

Entro no avião e vejo gente que não imaginei que existisse dentro de um. Gente de todos os estratos sociais. Isso agrada-me. Já não é preciso emigrar de carro, com a casa amarrada no tejadilho com uma corda atada em cruz e presa aos ferros da carrinha. Já não é preciso esperar três ou quatro dias, talvez cinco, a mandar calar os filhos, a mandar «estes condutores estrangeiros à merda», para chegar a França. 

Paris já não tem de sentir o suor da chegada desse imigrante. Sim, imigrante. Bem-ditos sejam para o país que os acolhe. Bem-ditos os que não esquecem o país nem se enchem de grandeza. Que fariam os patrões para quem eles chapam massa nas obras se os vissem ao volante do BMW serie 7 com que passam a fronteira de Portugal? Rir-se-iam depois de verem o porta-chaves da Rent-a-car preso à chave?

Não. Não democratizou. Há ainda objectivos diferentes. É possível ter dois turistas, que passam o mesmo tempo na mesma cidade, visitando os mesmos monumentos à mesma hora. As experiências são iguais, os momentos idênticos e ainda assim as recordações, o proveito e a utilidade são diferentes. Um chegará a casa e dirá que gostou. O outro chorará o regresso.

Chego a casa e choro o regresso. Da próxima, prometo, fico lá mais tempo. É sempre assim. Um regresso penoso que me leva a querer ficar, a não querer deixar para trás aquilo que sinto ser meu. As cores são diferentes, os cheiros mais intensos. Talvez seja só esta película que me embota os olhos.

A próxima vez. É sempre nisso que se pensa quando se regressa, não é? E porque não concentrarmo-nos no gozo que nos deu esta, primeiro. Porquê a pressa? Porquê? 

Ainda ninguém percebeu que deixar passar estas coisas é como foder e acordar de manhã sem se lembrar? Ninguém entende que, se aquilo que se come tem de ser digerido, também aquilo que se vê merece uma digna reflexão?

Reflexão? Bonito é sentir! A sensação de poder fazer o que se quer, a liberdade feita, perfeita, como só ela consegue ser, sem inibições, impedimentos, coisas com que se preocupar. Que raio de palavra é essa, reflectir? Sonhar sim, agora reflectir?

Que a reflexão se torne um sonho. Que assim seja. Mas deixar tudo num limbo de perdição, ver, passar, andar com o passo fustigado por uma pressa que não se pode mudar, é pior do que não percorrer. Deixar que as coisas se traduzam num simples «fui» e não se reúnam num completo «foi», numa descrição silenciosa que só o olhar expressa…

Há quem mostre, assim, não merecer.

Sim, é verdade. Agora vamos?

Vamos.

Fernando Miguel Santos

O destruidor de rebanhos

Texto publicado originalmente no projecto Arcádia XXI a 21 de Março de 2008

Um dia acordamos e sentimos um impulso terrível. Uma sensação de dever incumprido, um aperto, uma força interior. Se não a seguirmos consome-nos. Se formos atrás dela corremos riscos enormes. Sim, é este o problema. O risco. Não há quem lide bem com ele e apenas só uma vez por outra se encontra alguém que saiba como contornar esse medo.

Se o risco não existisse não haveria heróis, os valentes seriam como qualquer outro; não existiria fantasia e os sonhos seriam fuligem pousada em mobiliário antigo. 

Tenho uma amiga que deixou de falar comigo durante um certo tempo. Pensei que a memória dela não fosse perfeita, como nenhuma é, e acabei por aceitar que era ocupada de mais para me falar. Certo dia, confessou porquê. Por entre problemas, tinha conhecido o homem da sua vida e vai casar e viver com ele fora do país. Desde o final do ano passado até agora, o seu sonho tornou-se o seu farol e, numa atitude que muitos tomariam como inconsciente, aceitou mudar a sua vida.

Embora esta história tenha um tom um tanto ou quanto semelhante aos livros de auto-ajuda tem uma diferença: é verdade. E é assim que todos devíamos ser. Implacáveis quanto àquilo que amamos. Recusarmo-nos a entrar na fila indiana, no rebanho, preferir o carrossel alucinante de uma escolha desmesuradamente recheada de novidade e risco. Abater o medo com uma espingarda de sorte e jogar connosco, confiando-nos a nós próprios. 

Abrirmos as asas não é difícil. Difícil é deixá-las bater por si só, como fazem os pássaros, desviando-nos de correntes adversas quase instintivamente e apoiando-nos em poços de ar quente para subir, poupando energia para as lufadas contrárias ou as tempestades de chuva.

É tão-somente ouvir o que vai dentro de nós. Quem nunca pôs um búzio na orelha? Hoje, o búzio somos nós. Ouvimos hoje o que o nosso búzio diz. Amanhã partimos.

Fernando Miguel Santos

Não amor

Texto publicado originalmente no projecto Arcadia XXI a 21 de Fevereiro de 2008

Há um estigma ligado ao romantismo. Negá-lo é negar a existência deste último. Se é que podemos dizer que ele existe.
A verdade é que o romantismo é quase tão diletante como a paixão pura e dura. Talvez nem exista como estilo de vida, tratando-se apenas de uma opção temporária. Não podemos nós ser românticos hoje e amanhã não?
É difícil enfrentar essa responsabilidade e cumpri-la de forma satisfatória. Há sempre um jantar, um ramo de flores, um sonho, há sempre algo que se interpõe no caminho fácil de quem não se subjuga às algemas do romance. No dia que elas se encaixam, é como se a chave fosse deitada fora, como se a liberdade estivesse presa por um pé a uma corda. Na outra ponta, uma pedra. E eis a nossa liberdade a sufocar depois de cair nas águas do tempo imenso, presa.
Na verdade, não há um único amor. Cada um tem o seu, e cada pessoa que o partilha tem dele uma versão e uma visão diferentes. Por isso, não pode existir romantismo como identidade unificada. Existe, sim, uma tentativa de corresponder a alguém, de suprir uma necessidade maior que se traduz em algo incorpóreo. Para quê tentar definir o indefinível? Porque não conseguimos deixar o importante indefinido. Simples.
E, de repente, vemos um rosto. Um cheiro e uma voz fazem-lhe companhia. Um corpo aparece. Olhos, lábios, contacto. Juntam-se, entram numa fase de banho-maria, transformam-se, unem-se e criam uma sensação. Apenas essa sensação existe, agora. Já não há indivíduo, há conjunto e parceria. Nem que seja por uma noite. Como os homens não se medem aos palmos, também as sensações não se medem ao minuto. Não há tarifa que as pague.
Então, esse não amor que insiste em catalogar estilos de vida e decidir quem é ou não valioso, cujos olhos são mais do que dois, mas olham todos só numa direcção, esvai-se. Sobra, nessa altura, o livre arbítrio. Temos espaço. Deixamos o não cair. O restante, usamos como nos aprouver, pelo tempo que for, na complacência rara da partilha com um outro e não com a sociedade. Só existem dois ali. Por mim, saio, em silêncio e deixo-os em paz. O seu não amor rejeita o amor que lhes querem impingir. Que assim seja até que a morte (do seu não amor) os separe.

Fernando Miguel Santos

Viajar mede-se em sentimentos

Texto publicado originalmente no blog https://modaestyle.com.pt/viajar-mede-se-em-sentimentos/

O quotidiano é uma revelação constante. A avaliação que fazemos de cada um dos que se cruzam connosco também o é. Jogamos interiormente com experiências passadas, preconceitos aos quais não conseguimos fugir e tendências que gostamos de acompanhar.

Continuamos a ser individuais e únicos, mas também semelhantes. A cada cruzamento de olhares acrescentamo-nos uma experiência. As ideias mudam, as intenções evoluem e somos cada vez mais.

Viajar é, por isso, uma forma de estar que se estabeleceu entre nós. Uns viajarão para coleccionar vivências, outros para guardar fotografias, mas independentemente da forma não evitamos a mudança.

A humanidade é, por si só, um desfile diante dos nossos olhos. Há novos panos, onde tecemos palavras nunca ouvidas; há novos olhares que nos tocam desconhecidos; há novas formas que nos invadem indelevelmente.

As pontes que construímos entre os mundos são mais robustas. Ficamos mais fortes a cada vínculo que assinamos com uma viagem. Podemos percorrer milhas de voo ou passos da nossa rua, mas viajar mede-se em sentimentos.

Somos avaliados pelo que vestimos, pelo que comemos, pelas métricas que cumprimos, mas as viagens deixam-nos imunes ao lado negro desses julgamentos. Vestimo-nos com algo que nunca imaginamos, comemos insectos que antes nos arrepiavam e deixamo-nos levar pelo infindável mundo que afinal temos dentro de nós.

Quando chegamos à pista de aterragem que nos viu partir somos o fiel depositário de tudo o que vamos guardar. Quer queiramos, quer não, sê-lo-emos para sempre, porque há sempre um destino, mas o que conta é a viagem.

Fernando Miguel Santos