Guilherme e os Duendes

capa

Decidi escrever um novo conto de Natal. Comecei por libertar aquelas amarras com que, por vezes, tentamos recriar o realismo. Baptizei as personagens com os primeiros nomes que me surgiram e alguns são bem estranhos. Fledik, Yordik, Taldik e Uldrik. Quatro duendes, ajudantes do Pai Natal, que compõem o coro mais bonito que possam imaginar. Neste conto, cantam para Guilherme, o menino que é a estrela da história.

A capa, muito mais bonita do que aquela que eu teria idealizado, foi criada pela Filipa Cardoso.

Como o Natal não se faz sem amor ao próximo, decidi oferecer metade do valor de capa para o Instituto Português de Oncologia. Faço uso das novas tecnologias e das suas vantagens. Não há intermediários. Há apenas a vontade de ser lido e de dar.

O preço do ebook (livro em formato electrónico) é de 2€, mas o pagamento é decidido pelos leitores. Independentemente do valor que escolheres, apenas 1€ é retido para registo da obra, ISBN e para promover outras actividades relacionadas com a iniciativa.

É uma história pequenina que me deu muito gosto criar. Relê-la, aquando da revisão do texto, foi para mim uma experiência sentimental, apesar de ter sido eu a criá-la e a dar-lhe o fim que tem. O Natal também é isto: criar e sentir.

Para vocês e para o IPO, Guilherme e os Duendes.

A minha tia-avó pega os touros pelos cornos: carta a um cidadão do futuro

Caro cidadão do futuro,

Escrevo-lhe com alguma apreensão. Primeiro, porque redijo esta carta numa das línguas mais faladas do mundo, mas que devido a acordos políticos – porque de ortográficos têm pouco – pode já não lhe ser perceptível. Em caso de necessidade consulte documentação sobre línguas antigas nos seus suportes mais recentes. Deverá encontrar algo no P, de Português. Poderá estar no L. Língua Portuguesa.

Em segundo, porque não sei se este texto estará proscrito. Por não ser politicamente correcto – que é uma forma aparentemente bem intencionada de fazer o impossível que é agradar a todos – faça o favor de ler em privado. Poderá trazer-lhe problemas. Ou ataques de riso com a estupidez que grassa na minha época, para si distante.

Peço-lhe, ainda, que não julgue o meu arcaísmo. A esta data em que escrevo posso não ter tido contacto com as evoluções que são, para si, dados adquiridos, porque o meu futuro é o seu presente.

Vivo num pequeno país chamado Portugal que se situa na Europa. Espero, sinceramente, que ainda exista com toda a sua autonomia, mas nem disso estou certo, apesar de me assustar só com o facto de enunciar esta possibilidade.

Neste pequeno e tão bonito país temos características que lhe poderão suscitar alguma surpresa. Imagine que temos uma linguagem rica em ditados populares, provérbios e anedotas. No Norte, usamos uma linguagem mais vernácula. Temos uma multiplicidade de sotaques e expressões divergentes ao longo do nosso território e somos conhecidos pela nossa literatura. A nossa tradição oral trouxe até aos meus dias expressões correntes que expressam de forma alegórica intenções práticas. Alguns desses provérbios populares – é assim que lhes chamamos – incluem figuras de animais. Esopo também os tinha nas suas fábulas, com a devida ilação moral, e La Fontaine recontou algumas delas em prova da sua aplicabilidade.

Apesar da evolução que se faz sentir no nosso tempo – provavelmente ridícula em comparação com tudo a que já assistiu – os animais não falam. Exactamente por isso, nunca conversei com nenhuma tartaruga que sofresse de narcisismo por ganhar uma corrida lentamente, nem nenhuma lebre despeitada se queixou de sentir o peso do estereótipo de ser descuidada e excessivamente confiante.

Temos uma canção que fala de um gato a quem atiramos um pau. Nunca nenhum gato decidiu falar sobre ensinarmos às nossas crianças tal acto alegadamente agressivo, mas, como todos sabemos, os gatos são muito independentes e têm problemas de maior com que se preocupar.

Ora imagine só que um partido político português, com base numa campanha de uma agência internacional de defesa dos animais, quer acabar com os nossos ditados apenas porque utilizam a figura de animais. Dizem que pode incentivar ao desrespeito pelos seus direitos. Esses direitos, que realmente devem ter, são sempre proclamados por seres humanos, dado que nenhum animal se pronuncia sobre isto.

Começo a ficar preocupado com a possibilidade de cometer uma injustiça ao dizer que determinada atitude é “chorar sobre leite derramado”. Esta expressão pretende transmitir-nos a incapacidade de remediar um mal que está feito e que devemos prosseguir em frente, procurando não prender a nossa acção a algo que já não podemos mudar. E se o leite decidir que usar a sua figura é insultuoso? E se as lágrimas acharem que misturar-se com leite é indigno da sua sentimentalidade? Espero que tal não aconteça. Afinal, não sendo seres vivos não falam.

Consegue perceber a dimensão do meu problema? Há determinadas frases que não podemos dizer, mas podemos permitir que sejam ditas outras que não queremos que sejam usadas. Isto acontece num tempo em que falamos muito de liberdade de expressão, ou seja, a liberdade de dizer o que queremos. Não somos impunes a consequências, mas temos liberdade para nos exprimir e depois arcar com elas.

No tempo dos meus antepassados directos, existiam ditaduras. Nem tudo se podia dizer. Existiam polícias que perseguiam aqueles que exprimiam opiniões contraditórias sobre alguns governos. Agora podemos legalmente dizer tudo, mas não fica bem. Isto refere-se ao tal politicamente correcto que lhe citei acima.

Basicamente, ser politicamente correcto é dizer apenas aquilo que os outros querem ouvir, sempre tendo em conta que todos os outros querem ouvir coisas diferentes, quer das nossas, quer entre si. Como perceberá, há muita gente que se sente na obrigação de ficar calado. Ficam deprimidos com o facto de estarem em silêncio e alguns chegam a matar-se. Isso acaba por ser benéfico para todos, porque deixam de haver opiniões divergentes e é sempre menos um a falar mal dos animais.

Até as pessoas que trabalham o humor estão a ser alvo de algumas críticas. O que aqui me apoquenta é que o humor implica riso e, por vezes, não é bem visto rirmo-nos de desconhecidos. Eu que sempre achei que rirmo-nos da nossa própria pessoa era um princípio saudável vejo-me confrontado com alguns que são considerados loucos e que, por isso, também não se podem rir de outros.

É então que se alega que quem não se ri nem fala é maluco. Internam-se pessoas que não sabem o que é o riso ao lado daqueles que se riem de mais, sendo que a avaliação da quantidade de riso que é aceitável depende de alguém que também não sabe se pode rir ou não.

Conhece aquelas profecias do Armageddon? Aqui temos três por dia. Cada novo assunto é um cataclismo e um sinal do fim do mundo. O problema é que o mundo não acaba e no dia a seguir há mais três assuntos para acrescentar a este rol.

Às vezes tenho a sensação de que a vida na Idade Média era mais agradável, mesmo tendo consciência de que havia gente que era queimada em fogueiras e outros que levavam com a merda que era projectada livremente de algumas janelas. Nessa altura, pelo menos, o sofrimento de não poder falar nem rir acabava com o fogo e os animais não se queixavam de ver a sua merda arremessada levianamente em vez de ser usada como adubo em proveito da natureza.

Como nessa altura havia pessoas que viviam como os animais vivem no meu tempo, os animais viviam como animais.

Podia-se, sendo hábil, matar dois coelhos duma cajadada só. As porcas torciam o rabo livremente quando algo se complicava.

Tenho uma tia-avó que ainda hoje vive, linguisticamente, na Idade Média. Quando se chateia com alguém chama-lhe “traste bagageiro”. Quando alguém a afronta diz que se sente como se lhe tivessem “dado com um gato morto na cara”. Se alguém ignora a sua experiência é clara o suficiente dizendo que lhe “tiram os olhos e lhe cagam nas órbitas”. Quer os trastes bagageiros, quer os gatos e até mesmo a merda que fica nas órbitas nunca se queixaram destas alegorias da minha tia-avó. Porém, tenho receio que prendam a velhota pelas reclamações dos centros defensores dos trastes bagageiros, das ligas de apoio a gatos mortos e até das organizações para a liberdade e livre-arbítrio da merda.

Esqueci-me de lhe dizer que no nosso parlamento – uma coisa antiga para si onde as pessoas se juntam para discutir os destinos do país – existem duzentos e trinta deputados. O partido que quer matar (desculpe, revogar) os nossos provérbios só tem um.

Exactamente por isso estou a pensar criar um partido onde só a minha tia-avó seja militante. Afinal, chega um. Quando ela chegar ao parlamento vai propor legislação sobre riso grupal sobre frases hiperbólicas e alegóricas contendo figuras de animais, de forma livre e espontânea. Vamos promover campanhas de liberalização de linguagem vernácula em regime privado e público e vamos criar gabinetes de apoio a todos aqueles que gostam de ser insultados, ofendidos e de levar, figurativamente, com gatos mortos na cara. Quanto à merda deixaremos que os defensores da coprofilia façam o projecto de lei.

Despeço-me para não me alongar mais. Tenho mais pormenores a relatar-lhe que deixarei para uma carta posterior.

No caso do mundo ter evoluído de forma por mim imprevista e o meu caro cidadão do futuro ser um animal, daqueles que antes não lia cartas, as minhas desculpas. Se for uma hiena aproveite e ria-se. Existirá algum partido que defenda esse seu direito.

Os meus mais sinceros e aflitos sentimentos,

Fernando Miguel Santos

Doze de Dezembro de Dois Mil e Dezoito

Escrever

Não me lembro de um dia da minha vida em que não tenha pensado em escrever. Mesmo nos dias em que não o faço penso nisso. Quando me sinto bem adoro escrever sobre isso. Quando me sinto menos bem alivia-me relatar o que sinto.

As palavras têm mais poder do que armas. Mudam o mundo, formam pessoas, fazem de nós mais humanos do que somos. Escrever, seja o que for, é respirar.

Gosto de respirar através do Fiel Depositário, mais pessoal e íntimo, e do Pista de Aterragem, mais fresco e mais profissional. Este site é a ponte entre nós, o ponto de encontro, a encruzilhada. É onde se encontram as minhas palavras, mas também as actividades, os projectos e as aventuras.

Publicar um livro é como respirar fundo. O ar é diferente, mais duradouro, mais saboroso, mais difícil de encontrar mas mais fácil de absorver. Assim foi com o Aldeia de Luz, que faz parte de mim através dos pensamentos e sentimentos que ali estão plasmados. No Dois Maços as palavras foram formas, simetrias, jogos e afirmação. Quando o Natal Quiser é o futuro digital, a exploração da loucura, a liberdade expressiva do inconsciente menos censurado.

Se escrever é como respirar, ler é como comer. Se a cada inspiração e expiração minha tiverem o prazer de degustar o resultado terão encontrado a fonte da felicidade de um autor.