Jessy

Chamava-se Jessy, como a cowgirl do Toy Story. Não vivendo já na mesma casa que ela, pensava que a sua despedida me iria custar menos, mas as memórias talvez justifiquem a ligação. 

A Jessy foi a primeira cadela que tivemos cuja raça não era perceptível. Nunca fomos atrás de pedigree ou pureza genética, mas o cruzamento de que a Jessy era resultado era indiscernível e feliz. Era bonita, tigrada, com porte pequeno, mas envergadura musculada. Levantava os pelos do pescoço quando irritada. 

Pouco tempo depois da sua chegada a nossa casa, surpreendeu-me com a sua inteligência. Ensinei-a a sentar, usando um método que li num livro, mas quanto ao deitar algo de mágico aconteceu. Não a treinei, não procedi a nenhum método de condicionamento. Escolhi, apenas, um gesto. No treino de sentar usei um dedo a apontar o chão. Naquele dia, estiquei a mão, dei ordem de deitar e a Jessy deitou-se. Talvez haja ciência atrás disto, mas prefiro acreditar que o que houve foi um entendimento entre um rapaz e uma cadela que sabia o que estava a fazer. 

Reparem, prefiro acreditar. Como preferiria acreditar em muito mais coisas. Um céu de cães, por exemplo. O mesmo céu que, em 2012, desejei à Luana, a cadela da Filipa. 

Não é fé, é fantasia. É através das histórias que me interpreto e que me conheço. E a Jessy faz parte da minha história. 

Hoje, a Becky – como a namorada do Tom Sawyer -, para quem a Jessy se tinha tornado uma mãe permissiva, não rosnou quando as acariciei. Não tentou separar-nos com ciúmes e lambeu a Jessy dezenas de vezes. A Jessy, com quinze anos, muito doente e cansada, aceitou os mimos da companheira. Eles sabem mais do que nós. 

Como escrevi em 2012, o amor mede-se primeiro no pouco. Nos detalhes, no que parece pequeno. Somos melhores pessoas quando amamos um animal e eles são generosamente incondicionais no que nos devolvem. 

É mais fácil saber que estava lá o meu irmão João e que tratou tudo de uma forma que me deixa orgulhoso; é mais fácil saber que não morreu sozinha; é mais fácil contar a mim próprio uma história, como gosto de fazer, onde a Luana a encontra, lhe apresenta a eternidade e a Jessy a sossega dizendo que teve uma boa vida e que foi amada pela Becky e pelos donos.  

Author: Fernando Miguel Santos