A arte faz-nos mais humanos. Aproxima-nos, entretece-nos de linhas invisíveis e embala-nos num berço de igualdade. É curioso que seja através dela que criemos celebridades, semi-deuses, nomes aparentemente dotados de omnipresença. É o valor da notoriedade que depois esperamos ver contrastada com a prova de que o artista é um de nós.
Pedro Abrunhosa é um dos omnipresentes da minha vida, não apenas pela dimensão que tomou com todo o mérito, mas porque faz parte da banda sonora que anima este filme de que sou personagem principal. Estou certo de que é assim para muitas pessoas.
Dia 13 de Abril estivemos no Coliseu do Porto para o ver, acompanhado por Paulo Ribeiro e pelos Camponeses de Pias. Repassei a sua discografia em forma de preparação e, embora tivesse a sensação de a conhecer desde sempre, houve algo que me chamou a atenção: o cuidado.
Abrunhosa cuida das letras e cuida das melodias, das harmonias, das orquestrações. Os seus álbuns contêm canções que se espraiam, transportando-nos para uma jam session só nossa. Outras, pela força da palavra, contêm poder.

Poderá parecer que um artista com uma imagem tão marcante tem pouco por onde se reinventar. Poderia pensar-se que não teria necessidade de se esforçar, de criar o novo, que seria suficiente esperar pela multidão que o acompanha.
Pedro Abrunhosa provou-nos, mais uma vez, que não é assim, unindo o Coliseu do Porto num momento mágico. Mais do que um concerto, o que tivemos oportunidade de viver foi uma construção progressiva de um sentimento partilhado entre todos os presentes. Cada um de nós o caracterizará de maneira diferente, cada um terá o seu adjectivo. Certo é que se sentiu, como sempre, o cuidado. O cuidado connosco, o cuidado em nos conduzir pela mão numa sequência pensada e sentida, imaginada para que a cada passo nos envolvêssemos no todo do qual fazíamos parte.
É que Pedro Abrunhosa tem corpo artístico para ocupar um palco todo, mas dá inúmeras vezes um passo atrás. Deixa o público vibrar solto, dá espaço aos seus músicos para solarem, para repetirem, dá tempo para que dentro de nós entre uma luz. « Ilumina-me », cantámos todos.
A arte, na mão de Abrunhosa, ganha vida para lá da voz, para lá do piano, para lá da superficialidade. É palavra de ordem contra a guerra, é palavra de sossego, é palavra de compreensão para aqueles que buscam algo melhor. Afinal, « ninguém sai donde tem paz ».
Com canções de todos os seus álbuns a comporem o alinhamento, o público faz várias -nem de propósito – viagens. Regressamos ao tempo dos Bee Gees, à eternidade do Hallelujah de Cohen, percorremos o Momento e sentimos as emoções avassalarem-nos em Contramão. Ninguém diz « não posso mais » porque todos querem que continue e que nos leve pela mão. Que, insista-se, nos ilumine.
O músico portuense dá um destaque, merecido, às vozes tradicionais dos Camponeses de Pias. Há na prosódia alentejana algo de hipnoticamente positivo, um embalo, uma brisa que acaricia um sobreiro. Embevecidos. È assim que ficamos por poder ouvir a voz de Rodrigo Aleixo, um símbolo do futuro da tradição.
Menos de um mês depois, nasceu a minha primeira filha. Perseguimos, nesta vida, a consolação do belo e do sublime. Fico feliz por saber da permeabilidade musical do útero e da proximidade temporal da beleza deste concerto com a experiência sublime de ser pai.
