O Título
As palavras são uma das distinções mais marcadas entre animais de racionalidades diferentes. Foram inventadas para algo profundo. Fugir de dinossauros era possível com sinais de fumo e gritos, mas a construção de sociedades não. Palavras mudam vidas. Esta é a minha maior fé. Há até algumas que se dizem com dificuldade. Desculpa, amo-te, fé, ela mesma.
Marinava em mim a ideia de escrever algo sobre episódios reais, sobre pessoas reais, sítios de verdade, momentos irrepetíveis.
A oferta de um livro veio reforçar essa ideia. Gosto que me ofereceram livros e que o façam sem instruções. Os melhores livros que recebo são de pessoas que me conhecem bem, mas que seguem uma mágica conjugação do seu gosto com o meu. Pensam no que acham que tenho, no que gostaria, no que elas apreciam e acabam por me oferecer pérolas. Alguns vêem de pessoas que pouco lêem. Outros de pessoas que cultivam a leitura. Como o meu pai.
Ofereceu-me este Natal um livro que eu nunca compraria e cuja escrita, à primeira vista, estranhei. “O Presente”, de Stefanos Xenakis. É uma compilação de episódios que nos fazem ver o quotidiano como um presente. A escrita é estranha. Sincopada, com demasiados pontos finais, o ritmo assemelha-se em todas as páginas. Depois, vicia pelo bem que nos faz sentir.
“Troca, se não te agradar”. Não, é uma questão de princípio. Quando o livro é um presente não o troco. Neste caso, era-o duas vezes. Depois pensei que podia fazer melhor. Eu tenho histórias daquelas e sempre quis contá-las. Sei até usar menos pontos finais.
Estava em Braga quando tive a ideia para o título. Contava à Filipa a história dos três pês (e a habilidosa resposta dos cinco). Três pês. Pessoas. Só faltam dois. Sítios e momentos? Ora, paragens e peripécias. Aqui está. Que nos divirta.
