Somos mais

Sou pai. Uma experiência que relativiza os sacrifícios e que aparece na minha vida como uma invasão primaveril, inundando-me de um amor a três que floresce a cada dia que passa. É uma experiência inesquecível. Tendo escrito, nos meus cadernos, páginas que descrevem esses momentos e sentimentos, queria agora destacar algo diferente. 

Durante trinta e nove semanas vi uma mãe nascer. Não se trata apenas das mudanças corporais, das hormonas, do sono alterado e de toda a logística exigida a uma mudança de vida deste gabarito. Trata-se sim de ver alguém proteger um pequeno ser que ainda não conhece, a abraçar uma responsabilidade que lhe era alheia anteriormente e de ver como isso se faz de forma mágica e bela. 

Depois desse período, nasceu a nossa filha e, com ela nasceu também uma mãe efectiva, um cérebro que desperta a cada pequeno som, um amor que se demonstra a cada amamentação e a cada cuidado.

Invejo a sorte de ter um corpo que faz subsistir uma criança sem ter de recorrer a nada que lhe seja externo durante mais de um ano, primeiro através do cordão umbilical, depois através do vínculo de que aquele é metáfora perfeita. Não tão invejáveis são as dificuldades, mas o amor – sempre o amor – resolve-nos.

A partir daquele dia, sou mais. Somos mais. Sou mais Fernando, mais homem, mais amor; somos mais família, mais ninho e mais proximidade. Não desapareceram a esposa e o marido, nem tão pouco os namorados, mas apareceram os pais, paulatinamente, provando que o amor – sempre o amor – é uma vivência que para além de nada nos subtrair, ainda nos soma. 

Author: Fernando Miguel Santos