Trair e Coçar é só Começar

As horas dos sábados dedicadas ao estudo da relação entre música e literatura dão-lhes um sabor especial, mas este último, dia 4, foi engrandecido por uma outra arte: o teatro. Fomos ver “Trair e Coçar é só Começar” da autoria de Marco Caruso, adaptada por Nuno Markl e encenada por Miguel Thiré, que se encontra em cena no Teatro Sá da Bandeira. 

Chegámos em cima da hora, traídos por uma estimativa que não incluía aquele trânsito e as obras que mudam – esperemos para melhor – o rosto do centro do Porto. Depois de uma corrida despreparada, o acolhimento que o veludo vermelho nos oferece e a decoração secular da sala recebem-nos do lado da fantasia. Estonteante é o adjectivo perfeito, quer pela sala quer pela corrida.

O teatro estava repleto. Os nossos lugares eram na primeira fila, à esquerda. Mal Sara Barradas entrou em cena foi como se estivéssemos com ela naquele apartamento que seria lugar duma confusão épica. 

“Trair e Coçar é só Começar” é a história de um imbróglio que tem Palmira (José Raposo), a empregada de uma família de classe alta, como protagonista. Iniciam-se desde logo os trocadilhos com a realidade quando a patroa Constança (Sara Barradas) diz à empregada (José Raposo) que gostaria de ter um marido tão atento quanto ela. 

Daí em diante começam os treinos abdominal e lacrimal intensivos, tal é o riso provocado pelas insólitas situações e os brilhantes desempenhos.

Como numa receita bem pensada e bem executada estão lá todos os ingredientes: os jogos de palavras que levam Palmira a perder-se na confusão dos patrões e dos seus amigos ricos; as deduções que levam os casais a conclusões erradas e (quase) catastróficas; as loucuras do administrador de condomínio (Rafael Medrado) e do vendedor de jóias; o acordar de Palmira para a oportunidade financeira de vender o seu silêncio… O público pode ainda apreciar uma pitada de absurdo, dois corpos esculturais em situações inusitadas (Isabela Valadeiro e Bruno Madeira), a inesquecível e afectada forma do Dr. Eduardo (Rui Unas) chamar Palmira, o engraçado desespero de Cristóvão (Telmo Ramalho) e os tiques da sua mulher (Matilte Breyner), a vingança da mulher do administrador de condomínio que todos confundem com outra pessoa, o ar encurralado do padre Simão (Carlos Areia)… 

O álcool pode alterar alguns vendedores de jóias, como o representado por Bruno, mas quem se transforma é o público com tanto riso.

Há imensos pormenores, apanágio de textos bem delineados, que são acentuados com a performance deste elenco de luxo. Fica provada a qualidade transgeracional do nosso teatro.

Um espectáculo em crescendo onde são ultrapassadas as expectativas criadas pela própria trama (e, às vezes, os limites do cenário), com um volte-face no final que faz jus a todo o arco narrativo.

Não só pelo papel, mas principalmente pela mestria, destaca-se José Raposo. Não haverá, estou certo, Palmira igual.

A intrincada trama levou a algumas trocas de nomes das personagens provocando o riso nos actores. O público acompanhou, como sempre. É esta a magia do teatro: ser real. É a verdade de quem representa a viajar para lá da ribalta, banhando o público. 

No final, José Raposo tomou a palavra. Nos seus agradecimentos, dedicou um especialmente ao público do Porto. A merecida ovação de pé era, assim, retribuída de forma comovente. Ouviu-se um “viva o Porto!” vindo do público e partimos sorridentes, não sem antes registar o brasão da Invicta que assistia à partida dos visitantes.

Ah, já me esquecia: Palmiraaaaaa!

Trair e Coçar é só Começar

Autor: Marcos Caruso

Adaptação: Nuno Markl

Produção: Plano 6 e UAU Produtora

Encenação: Miguel Thiré

Elenco: José Raposo, Carlos Areia , Rui Unas, Sara Barradas, Matilde Breyner, Telmo Ramalho, Bruno Madeira, Rafael Medrado, Isabela Valadeiro.

Author: Fernando Miguel Santos