Kinder

Primeiro, teve de ser conquistado. Afinal, a casa era dele, apesar de lá viverem alguns humanos. Eu, que pretendia conquistar uma das humanas que lá vivia, tinha também de o fazer ao gato. Por essa altura, tal era a novidade da minha chegada, até a Luana, a cadela meiga que habitava a pequena casota junto às garagens, me rosnava.

É claro que ela se habituou primeiro, mas também ele acabou por ceder. Primeiro pelas festas, depois pelo colo e mais tarde pelos melhores momentos que dele recordo: as minhas manhãs ensonadas depois de uma noite de vigília.

Eu vinha de cuidar de doentes no São João, directamente para visitar a tal humana, e para todos os humanos era dia. Apesar do sol, das horas, do calor e de todos os outros critérios que pudessem ser apontados para contradizer a vontade de dormir, para mim era noite. Então, o Kinder, já conquistado, vinha para o meu lado e dormia. Ronronava o tempo todo, o seu corpo esticado junto ao meu, a pata de cima a abraçar-me como se dormíssemos em cadeirinha.

Nunca conheci nenhum gato que fizesse conchinha, muito menos pousando a pata por cima de um humano que não fosse seu dono. Agora podíamos fazer tropelias um ao outro. Havia a confiança de quem dorme na mesma cama.

Quando ele desapareceu e fomos buscá-lo ao gatil municipal, de pata pendurada pela inércia, retribuí-lhe o favor. Não havia forma de confiar naquele veterinário que, tempo antes, vira tocar na ferida aberta da Luana, sem luvas, e logo de seguida na cara. Aquela pata que o veterinário queria amputar, a mesma que tantas vezes me servira de consolo após uma noite de trabalho, voltou com ele. Outras opiniões e outros tratamentos mais tarde – neurologista veterinário incluído – e eis a pata funcional, sem qualquer défice. 

Fomos amigos durante doze anos. Fomos amigos desde o tempo em que éramos ambos jovens adultos. Fomos amigos até ele se tornar um sénior merecedor de grandes memórias. 

Nunca é de mais repetir que os animais conseguem fazer de nós algo que não seríamos sem eles. Tudo o que há de incondicional no amor que nos dedicam devia servir-nos de exemplo. Não há se ou senão que se interponha entre um animal e o seu apreço por alguém.

Dia 28 o Kinder deixou-nos. Partiu no meu colo, embrulhado num cobertor branco e no nosso amor por ele, agradecendo com um miar rouco e movimentos atrevidos da pata – sim, essa pata – a vida que pudemos partilhar.

E eu, que de não crer apenas me resta a imaginação, imaginei-o a correr ao meu lado nesse final de tarde, com a Luana, a Jessy e todos os animais que me ajudaram a crescer, e posso agora imaginá-lo comigo, todas as noites, todas as manhãs, ronronando de pata em cima do meu flanco, como que a dizer que fiz bem o meu trabalho.

Obrigado, Kinder.  

Author: Fernando Miguel Santos