Becky

Já não há quem ladre quando toco à campainha. 

Chegou a nossa casa após a tão comum quanto inusitada afirmação de que não queríamos mais animais. Era pequena, muito pequena, e punha a língua de fora de cada vez que o colo a fazia desfazer-se em mimo. Não era feita de inteligência, era feita de amor. 

No primeiro episódio engraçado que recordo, olhou para trás à nossa chamada, sem parar a marcha, acabando por bater contra o frigorífico. Quero acreditar que aquele pequenino cérebro tinha a economia perfeita. Só cabendo amar ou aprender, escolheu o primeiro.

Chamava-se Becky, como a amada do Tom Sawyer. Tomou a Jessy como sua mãe, ou como seu exemplo, mas era muito ciumenta e rosnava-lhe se ela recebia festas. Percebe-se bem, não percebe? Queria as festas todas, a família toda, os lugares todos. A Jessy acabou por ceder-lhe a cama maior e mesmo assim, não raras vezes, ela encafuava-se no espaço que sobrava nesse outro ninho, para estar ao lado dela.

Há cães que usam a língua com ar de quem quer conhecer o mundo. A Becky usava-a como se quisesse dizer ao Mundo que agradecia que ele existisse. E ainda bem que fomos nós o mundo dela.

Agora, numa mitologia com que tento vencer a descrença, foi incomodar a Jessy de novo. Talvez seja mais fácil encaixar-se no mesmo ninho agora que é feita do algodão das nuvens e da volatilidade do Éter. 

Obrigado, Becky. Dá um beijo aos outros por mim.

Author: Fernando Miguel Santos