“A perceção de que o governo está uma desgraça – que parece ter sido o fator primordial por trás da votação do Brexit, da eleição de Trump e dos desenvolvimentos paralelos na Europa – reflete uma fantasia sobre a maneira como um governo deve funcionar: uma instituição que fará mais por nós enquanto exige menos de nós. Mas votar contra as normas instituídas – filosoficamente falando, uma posição mais liberal do que conservadora – raramente traz mais coesão e, muitas vezes, marca o ponto de queda no caos. Ignora a velocidade com que os libertadores foram ficando, diz-nos a história, a parecer-se com aqueles que haviam destronado. A ideia de que os problemas nacionais se resolvem melhor pelo sequestro nacional remonta a um tempo imaginário em que as atividades de uma nação podiam ser genuinamente separadas das atividades das outras nações. O liberalismo afirma que os interesses de um país estão sujeitos às contingências da melhoria do mundo; o conservadorismo radical de hoje quer que esses interesses estejam em competição com o resto do mundo.”
Andrew Solomon (Lugares Distantes, Como a viagem pode mudar o mundo)
Lugares Distantes, Como a viagem pode mudar o mundo, de Andrew Solomon (publicado pela Quetzal Editores, com edição de Francisco José Viegas, e traduzido do original Far & Away, How travel can change de world por Telma Costa) é um livro sobre os diferentes mundos que o mundo contém. Faz jus à citação de Alexander von Humboldt: “Não há visão do mundo tão perigosa como a daqueles que não viram o mundo“. Não é um livro sobre política, mas é um livro político, porque nos confronta com o nosso desconhecimento sobre realidades que nos são alheias e tão díspares. Da gastronomia chinesa às favelas do Rio de Janeiro, passando pela arte russa, Andrew Solomon descreve-nos aquilo que vê, as vozes a que deu ouvidos e os detalhes em que atentou. No fim do livro, faz uma incursão sobre a eleição de Trump.
“O absoluto choque que tantos liberais exibiam no momento do sucesso de Trump revela até que ponto metade dos cidadãos dos Estados Unidos reconhece a outra metade. Além disso, reflete o fracasso das sondagens e mina a nossa confiança nos media que se pretendem neutrais. Têm-se multiplicado as acusações de que o algoritmo do Facebook criou uma “bolha de filtro” que deixou os liberais a ver somente posts liberais e os conservadores a ver apenas os conservadores; reforçou os seus pontos de interesse, cavando a trincheira; e levou cada um dos lados a acreditar que a maioria das pessoas estava de acordo quanto ao essencial.”
Andrew Solomon (Lugares Distantes, Como a viagem pode mudar o mundo)
Num livro não-ficcional de rara beleza, Solomon podia ter terminado com uma mensagem diferente, mais solarenga. Prefere terminar com notas de preocupação, porque teme que as diferenças que nos enriquecem nos sejam apartadas pelo ensimesmamento nacionalista que desponta (ou reina) em alguns países. Em época de grandes desafios (políticos, económicos, sanitários e sociais) devíamos fazer o esforço de não esquecer que somos uma comunidade que ultrapassa os limites fronteiriços. Abraçar as diferenças é dar o tom para uma música mais integradora e é muito diferente de um grito de revolta que nos isole.
Aquela “bolha de filtro” não existe apenas nas redes sociais. Existe nas pequenas comunidades, onde algumas vozes normalizam discursos reprováveis amolecendo-os aos ouvidos daqueles que antes os rejeitariam. Dando-se conta ou não, estão a dar os primeiros passos para um caminho de que, como os demais, não vão ser beneficiários, mas vítimas.
Não nos esqueçamos disso ao acordar, ao votar, ao falar e ao deitar.


