
No palco, do lado esquerdo, um retroprojector. Deitado, à direita, um contrabaixo. De pano de fundo, apropriadamente, um pano. Começa a peça e aparecem duas pessoas, uma para cada objecto. Depois entra Camões na voz de Gregório Duvivier.
Em O Céu da Língua, Duvivier faz da palavra a personagem principal. A cenografia, a música, as projecções, as marcações e até o humor físico e o riso são postos ao seu serviço.
Sendo ele o autor e o executante do texto, esperava encontrar a diversão, a competência e a inteligência, características comuns aos formatos em que se apresenta, mas não contava com uma aula, um tratado sobre a língua que serve tanto o público geral como quem se dedica ao estudo destes temas.
Não faltam exemplos de como se poderia considerar O Céu da Língua uma condensação humorística de um semestre universitário. Vejamos o plano de estudos: tem História da Língua no aparecimento do til; tem Linguística e a sua dicotomia descritiva e normativa quando fala do erro e das apropriações lexicais; tem Metodologia dos Estudos Literários com Roman Jakobson e algumas das suas funções da linguagem; tem poesia, muita poesia; tem fetiches que nos enfeitiçam (talvez esta última conste apenas das actividades universitárias extra-curriculares). Imagine-se tudo isto inserido numa cenografia simples que privilegia a palavra e embrulhado numa camada perfeita de humor que nos leva a rir a cada duas frases.
Logo no princípio, a forma como Gregório apresenta a poesia fez-me lembrar A Utilidade do Inútil: Manifesto, de Nuccio Ordine. Sim, a poesia é inútil porque não tem de existir para uma função, não está agrilhoada a resultados. Sendo a palavra a origem e a poesia a arte da palavra, quem poderá negar que até na diferença somos poéticos? Veja-se a variedade linguística entre o português europeu e o português brasileiro. Que português se apercebe que carrinho é algo pequeno, mas o feminino, carrinha, é algo grande? Já cafuné é festinhas na cabeça – em mim seria « uma lustrada », segundo Gregório – e os diminutivos por vezes aumentam, quando se aguarda um minutinho que dura mais que um minuto, porque passa devagarinho que é mais devagar do que devagar.
O texto, no seu brilhantismo, vai dessacralizando a língua, a palavra e alguns eternos poetas tornando tudo mais bonito, mais humano, porque até os grandes se repetiam e as línguas evoluem do erro. É desta forma que Gregório beija a língua enquanto a domina e a desconstrói.
Há uns meses, uma professora pediu-nos que recuperássemos a segunda pessoa do plural, tão abandonada quanto algumas palavras elencadas por Duvivier na peça. Por isso, vós que vos interessais por questões da linguagem ou que tão somente desejais rir, fazei o possível para participar nesta festa frondosa em palco, neste abraço caudaloso à língua que nos une. Talvez só assim sejais dignos de não sofrer um mamihlapinatapai quando vos cruzardes com um linguista.


Texto e representação: Gregório Duvivier
Direcção: Luciana Paes
Música: Pedro Aune
Projecções: Thedora Duvivier
Sala: Teatro Sá da Bandeira
Data: 2 de Dezembro de 2024
