
Da minha efémera experiência no teatro amador guardei uma ideia. Repetida até à exaustão pelo Sr. Meireles, o encenador, apresentava-nos a realidade do teatro como própria ao palco. Dizia-nos que o objectivo não era imitar a realidade, cujos diálogos são por vezes enfadonhos. A ideia era permitir ao público espreitar por uma fechadura e ver a realidade da história, do teatro, a verdade do texto.
Esta minha breve vivência de palco aconteceu por amor às palavras. O profundo respeito pela trama que merece ser exibida, as palavras que merecem entoações, dicção, expressividade. São palavras a quem a leitura não basta, só lhes dando início.
Voltei a estas ideias depois de assistir a “Um, Dois Três!”, no Teatro do Bairro. Uma comédia escrita por Ferenc Molnár, encenada por António Pires, e com Adriano Luz (que ainda há pouco nos brindou com o seu Alexandre Petrovsky, em Glória, a primeira série portuguesa na Netflix).
A peça conta a história de um banqueiro europeu que recebe na sua casa uma jovem americana. Filha de uma famíla cuja distinção e riqueza se reveste de importância vital para o banqueiro, que anseia por negócios com o seu pai, a rapariga faz uma revelação terrível aos olhos do seu anfitrião, pronto a partir de férias. A uma hora da chegada dos seus pais, conta-lhe que casou com um taxista de convicções comunistas e que está grávida.
O banqueiro, primeiro desesperado, põe em marcha um plano que tem como objectivo a transformação do jovem em alguém adequado às expectativas da família americana. Aplicando toda a sua astúcia e fazendo uso da sua influência financeira (e de muito “óleo”, como apelida a forma melíflua com que trata aqueles que tem de levar a colaborarem no seu plano), muda-lhe a aparência, a roupa, o emprego, a afiliação política e compra-lhe um título nobre e uma origem familiar com direito a sobrenome suficientemente digno para ser recebido pelos seus sogros.
Numa encenação de acto único que nos fixa o olhar num espaço, mas nos solta a imaginação por vários outros, a sátira às infinitas possibilidades do poder económico e à força das aparências sai reforçada pelo brilhantismo da representação. A quantidade e o ritmo das palavras – e decisões – debitadas pelo banqueiro (Adriano Luz), a mistura da inocência com a sensualidade libidinosa da jovem americana (Vera Moura), a luta interior – e não só – entre convicção e cedência do taxista (João Maria), são apenas alguns dos exemplos da preciosa forma como esta comédia chega até nós, com muitos momentos de humor que sublinham a crítica subjacente à sátira.
Remetendo este texto de novo para o amor às palavras, “Um, Dois, Três” é mais uma prova de que há histórias que merecem ser contadas por muitos anos, que permanecem actuais, que se interiorizam como formas de conhecimento do que nos rodeia e que, talvez acima de tudo isto, nos divertem.

Um, Dois, Três!
Texto
Ferenc Molnár
Tradução
Rodrigo Francisco
Encenação
António Pires
Elenco
Adriano Luz
Carolina Serrão
Duarte Guimarães
Francisco Vistas
Hugo Mestre Amaro
Jaime Baeta
João Barbosa
João Maria
Mariana Branco
Vera Moura
Produção
Ar de Filmes / Teatro do Bairro
