
Versatilidade ou especialização?
On 10/03/2022 by Fernando Miguel Santos(Des)orientação vocacional
Durante anos, debati-me com uma ideia que ia e vinha como se me quisesse comunicar algo importante. Não sei ao certo quando terá surgido, mas, quando estava no nono ano, vivi um momento paradigmático.
A Escola Inês de Castro tinha dado o papel de orientadora vocacional a uma professora que sofrera um acidente que lhe causara graves limitações. Alguns dos meus colegas, os menos empáticos, tendiam a desvalorizar a experiência. A escolha da escala de avaliação das nossas tendências contribuiu para esse efeito. Consistia numa Escala de Lickert adaptada aos nossos gostos. Já todos preenchemos um questionário deste tipo, onde escolhemos várias opções que variam entre “concordo totalmente” e “discordo totalmente”. Nas nossas sessões de orientação vocacional, as frases diziam respeito a actividades e as escolhas possíveis variavam entre “gosto muito” e “não gosto nada”.
Como todos perceberão, a escolha não foi a mais acertada, mas foram os meus resultados que me deixaram mais perplexo. A cotação máxima era de trinta e seis pontos e foi o que obtive em todas as opções, excepto numa. Nessa, somei trinta e dois. Acabava como tinha começado: não havia orientação possível e, fosse o que fosse a minha escolha, corresponderia teoricamente aos meus gostos.
Foi uma surpresa para toda a gente o que fiz a seguir. Decidi enveredar pela área Científico-Natural quando sempre fui mais apegado às Humanidades, nomeadamente à História e à Língua Portuguesa. Havia uma clara influência do mercado de trabalho, que aparentava proporcionar mais oportunidades nesta área, mas havia outra razão apontada por mim. Queria explorar algo que me fosse menos intuitivo. Sentia que, escolhendo Humanidades, poderia ficar limitado aos meus gostos mais essenciais. Já na altura, sentia mais prazer em criar pontes entre vários conhecimentos do que em seguir uma linha reta.
Hoje
É muito curioso que escreva este texto depois de me especializar em Enfermagem de Cuidados Intensivos há menos de um ano. Olhando para o meu percurso externamente, pode aparentar que me fui desviando dos meus gostos ao longo do tempo. Não é verdade. Afinal, aqui estou eu a escrever em sequência de uma leitura que me deu algumas respostas. Acresce ainda o facto de ter escolhido o humor como mecanismo de coping, um tema de Ciências Humanas, para a minha monografia.
Há, contudo, algo que se repete invariavelmente nestas circunstâncias: a resistência de terceiros. Vejamos.
Vivemos num Mundo onde cada vez existem mais especialistas, onde somos cada vez mais incentivados a produzir dentro de nichos, onde nos dizem que o foco é o factor mais determinante do sucesso. De forma transversal, estas ideias são aplicadas da gestão de redes sociais até à investigação científica. Somos levados por uma corrente que nos tenta impulsionar – e acaba por fazê-lo se não lhe resistirmos- a aprofundar cada vez mais um caminho muito específico e que podemos ter escolhido muito cedo na nossa vida.
Sempre que penso nisto, lembro-me de Leonardo da Vinci e de Michelangelo. A forma como produziram a sua arte foi iterativa, mas também errática; exploravam vários domínios, falhando, para poderem lograr as obras e as invenções que ficaram na História. Não é, de todo, a ideia do especialista actual.
Com a maturidade conferida pelo tempo, fui-me inquietando menos com as resistências alheias, mas continuei a questionar-me sobre as suas razões. Por vezes, como quando fui criticado pela escolha do tema do trabalho final por quem deveria apoiar-me, reforcei a minha escolha como forma de provar que se pode fazer diferente. No caso do mémoire, a nota máxima provou que assim é.
O problema maior é o mesmo que existe entre pessoas muito arrumadas e pessoas menos arrumadas: os que convivem melhor com alguma desorganização toleram mais os muito organizados do que vice-versa. Da mesma forma, os que tendem à especialização vão achar que os que preferem a exploração de várias temáticas estão a perder tempo.
Esta ideia ficou reforçada por alguns livros como Outliers, de Malcolm Gladwell, onde o autor apresenta a teoria das dez mil horas de prática para atingir a excelência. Conheço bem a teoria, mas a ideia de praticar de forma obrigatória uma única actividade durante dez mil horas – o que acaba por acontecer em alguns empregos, mas de forma quase inconsciente – sempre me suscitou várias dúvidas. Não questiono a eficácia, mas sempre questionei a adequação da teoria a todas as pessoas. Principalmente, a mim.
Epifania na estação de serviço
Depois de um dia desgastante ao serviço da Spoon Eyes, a empresa de produção foto e videográfica que tenho com a minha noiva Filipa, parámos numa estação de serviço para abastecer. Passo sempre pelas prateleiras da imprensa antes de ir à caixa. Gosto de ver os títulos e, mais ainda, de apreciar qualquer produto legível. Num dos lados daquelas prateleiras, ao invés de revistas, expunham-se livros. Tive um pequeno momento eureka ao ver o livro pelo qual agora escrevo.
Repare-se nos factos: vinha de trabalhar numa área que não é aquela para a qual estudei na Universidade, a capa exibia um canivete suíço – símbolo do país onde agora desempenho funções de Enfermagem – e a citação que o encabeçava dizia: “Foi um prazer ter alguém a dizer-me que tudo aquilo que pensava acerca do assunto estava errado. Amei este livro. – Malcolm Gladwell”. O título era “Versátil – As Vantagens de ser Generalista num Mundo de Especialistas”( No original “Range – Why Generalists Triumph In A Specialised World.”)
Não comprei.
Não que não tivesse gostado, mas por duas outras razões: não se deve comprar nada por impulso ou quando se está cansado e porque os exemplares expostos tinham alguns sinais de manipulação (cada qual com as suas manias).
Dias mais tarde, encomendei o livro. A ideia de poder alcançar algumas respostas era reforçada pelas 350 páginas escritas por David Epstein.

O livro
A sensação de ler Versátil equiparou-se à que tive quando li Pai Rico, Pai Pobre (Robert Kiyosaki). Se neste último senti estar perante a revelação de como fazer a gestão financeira, ao ler Versátil senti-me sustentado nas minhas indagações em vários temas. Não será por acaso que a Forbes o considerou como “o livro de gestão – e de parenting – mais importante do ano”. Gestão de carreira, gestão de expectativas, gestão de frustrações ligadas às resistências supracitadas e gestão da educação de filhos.
Com exemplos práticos e bem conhecidos, como Tiger Woods e Roger Federer, Vincent van Gogh e JK Rowling, o autor David Epstein leva-nos por um caminho aparentemente contraintuitivo. Não nega as vantagens das especialidades, mas delimita o seu campo de acção, expõe os seus riscos e limitações e explica em que tipo de ambientes de aprendizagem a especialização é mais adequada. O que é de sublinhar é que existem casos onde a especialização pode ser nefasta e até limitativa.
Trabalhei durante vários anos com neurocirurgiões e intensivistas de renome. Alguns, principalmente os neurocirurgiões, têm uma imagem pública quase inabalável. Há noções sobre eles que roçam o endeusamento. Aos meus olhos, nem todos eram assim. Bastava mudar a temática da conversa para ver uma pessoa normal ou, nos piores casos, alguém com limitações de análise que não se coadunavam com essa “imagem divina” da performance.
David Epstein explica porquê. Há dois tipos de ambientes de aprendizagem: ambientes acolhedores e ambientes inóspitos.
Os ambientes acolhedores, onde existem menos variáveis, permitem que a repetição e a experiência aumentem a performance e o sucesso da especialização. É assim com o golfe, o xadrez e as algumas cirurgias.
Os ambientes inóspitos caracterizam-se por variáveis infinitas que impedem a repetição e o feedback imediato. A adaptação à resposta e ao resultado torna-se mais difícil, quando possível.
O ambiente inóspito por excelência é o Mundo. A Vida. Isso faz da tendência incessante de nos empurrar para a especialização um facto estranho e curioso.
Fazer uma escolha inclui um imperceptível – ou nem tanto – processo de luto por todas as outras. Do mesmo modo, o foco excessivo inclui uma cegueira selectiva. Há demasiado conhecimento para nos limitarmos a um meio. Fiz um vídeo sobre isso no meu canal de Youtube. Escrevi sobre isso incontáveis vezes.
Existem empresas que promovem prémios milionários a quem apresente soluções para problemas científicos. As candidaturas estão abertas a todos, mesmo a leigos.
“As pessoas que ganham um concurso de saúde da Kaggle não têm formação médica, nem em biologia, e habitualmente também não são verdadeiros especialistas em aprendizagem de máquinas”, disse-me Pedro Domingos, português, professor de ciências de computação e investigador na área da aprendizagem das máquinas. “O conhecimento é uma lâmina de dois gumes. Permite-nos fazer algumas coisas, mas também nos cega para outras que podíamos fazer.”
Versátil, escrito por David Epstein
No livro, esta atitude é apelidada de “entrincheiramento cognitivo”. Sabemos o que acontece quando se vive em trincheiras. Há pouca compreensão do que se passa do outro lado. Até a metáfora bélica serviria este argumento.
“Muitos especialistas nunca admitiram falhas de julgamento sistemáticas, mesmo quando confrontados com os seus resultados. Quando acertavam, isso devia-se inteiramente aos seus méritos – era a sua especialização que lhes permitia perceber claramente o mundo. Quando falhavam redondamente, era sempre um caso de falhar por pouco; insistiam que tinham percebido perfeitamente a situação e que teriam acertado completamente, se houvesse só um pequeníssimo pormenor que se tivesse desenrolado de outra forma.”
Versátil, escrito por David Epstein
Este tipo de comportamento é especialmente aguçado em momentos de grande tensão, como pandemias ou guerras. A proliferação de especialistas leva alguns a cair na redundância do entrincheiramento: quanto mais expostos, mais certezas têm; colocando menos questões, mais entrincheirados ficam; quanto mais se afastam das dúvidas, mais correm o risco de errar. Alguns chegam a servir-se da notoriedade e da autoridade para contrariar conclusões de estudos cujo método é irrepreensível.
A criatividade também depende de se desafiar o statu quo. Segundo Epstein, equipas formadas por pessoas de várias proveniências formativas têm mais sucesso do que equipas muito especializadas, pela criatividade que imprimem ao trabalho e pelas pontes que criam entre várias áreas de conhecimento.
Porquê? Porque fazem uso do pensamento analógico.
“O pensamento analógico pega naquilo que é novo e transforma-o em qualquer coisa de familiar; ou então pega no familiar e mostra-o sob uma nova luz, e permite aos humanos raciocinarem sobre problemas que nunca viram em contextos que não são familiares.”
Versátil, escrito por David Epstein
Somos, pelos vistos, a única espécie a poder fazê-lo. Ainda assim, por vezes alienamos esta nossa vantagem ao rodearmo-nos do mesmo tema. Como no caso do problema que ficou por resolver por só existirem especialistas de Escherichia Coli num laboratório ou na NASA, cujo acidente com a Challenger revelou uma estrutura tão rígida em relação à análise de dados que levou à desvalorização de sinais empíricos evidentes.
Darwin não era um especialista. Pelo contrário, teve de recorrer a especialistas para perceber questões que, mais tarde, integrou criativamente através do pensamento analógico. Kepler abriu caminho à astrofísica através de analogias com o mundo natural, chegando à existência da força gravitacional por comparação com cheiros, calor, almas, esferas invisíveis, entre muito conceitos ora reais, ora vigentes numa ciência por desenvolver.
“Um estudo recente indicou que é menos provável um doente cardíaco morrer se der entrada no hospital durante uma reunião nacional de cardiologia, quando milhares de cardiologistas estão ausentes; os investigadores avançaram uma explicação possível: talvez seja menos provável o recurso a tratamentos comuns de efeito duvidoso.”
Versátil, escrito por David Epstein
Desengane-se quem entenda isto como uma desvalorização da ciência. Muito pelo contrário, é um elogio à diversidade e à integração, algo que faz parte do método científico e que, pela pressão em publicar mais e em ser mais eficaz, parece ter sido esquecido. É muito difícil encontrar financiamento para pesquisas pouco específicas que não saibam exactamente o que querem encontrar, o que dificulta descobertas verdadeiramente disruptivas.
O que Epstein defende é que deveríamos aprender a pensar antes de adquirirmos conhecimento. Só assim podemos tirar partido do pensamento analógico e do pensamento lateral, que aplicam um tipo de conhecimento a uma área à qual normalmente não está associado. No livro, enumeram-se vários exemplos de cientistas que usam o seu tempo livre para a exploração fora do seu contexto profissional. São aparentes divagações que dão origem a descobertas surpreendentes.
Conclusão
Poderia escrever muito mais sobre este tema e é provável que volte a ele. Epstein ajudou-me a perceber o porquê de tantas investidas contra a liberdade de algumas escolhas dos que ele apelida de “amadores deliberados”. Como ele escreve, em última análise, todos acabamos por nos especializar de alguma forma, mas isso não deve ser integrado como certezas absolutas. Antes, sim, deve ser usado para criar conexões inesperadas entre várias áreas do conhecimento. Segundo o autor, os músicos e os desportistas são frequentemente sinónimo de especialização precoce. No entanto, nos que se tornam de elite, a norma é uma “experiência inicial alargada e uma especialização tardia”. Talvez isto seja um dos maiores conselhos que se pode dar aos pais das futuras gerações.

Finalizo com algumas passagens que citam Arturo Casadevall, proeminente professor de microbiologia e imunologia na John Hopkins School of Health, que ainda hoje inclui a sua passagem pela McDonalds no seu currículo:
“Quando se expandem fronteiras, uma boa parte do trabalho é só exploratório. Tem de ser ineficaz.”
Arturo Casadevall, em Versátil, livro de David Epstein
“Aconselho sempre as pessoas que trabalham comigo a fazerem leituras fora da sua área, qualquer coisa todos os dias. E a maior parte responde: “Mas eu não tenho tempo para ler fora da minha área”. Respondo-lhes: “Não, não, tens de ter tempo, é muito mais importante.” O nosso mundo torna-se um mundo maior e talvez haja um momento em que consigamos estabelecer ligações.”
Arturo Casadevall, em Versátil, livro de David Epstein
“[Comparando] o sistema actual às guildas medievais: “O sistema de guildas na Europa começou na Idade Média, quando artesãos e mercadores procuraram manter e proteger capacidades e conhecimentos especializados. Embora essas guildas produzissem com frequência pessoas altamente formadas e especializadas que aperfeiçoavam a sua arte através de aprendizagens prolongadas, também encorajavam o conservadorismo e sufocavam a imaginação.” Tanto a formação como os incentivos profissionais estão a alinhar-se para acelerar a especialização, criando arquipélagos intelectuais.”
Versátil, livro de David Epstein
Há ilhas nas quais não se deve permanecer para sempre.
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