Pedestais
Somos todos vulneráveis Às declarações amáveis Que oferecem altitude Nuvens nos pés Visão sem viés Túnel que nos ilude Ícaro também lá chegou E só depois se provou Que tinha a culpa toda Cobertura de inocência Manto de inconsciência Ou simples efeito de moda Mas somos roupa estendida Engelhada ou esquecida À espera de mais um uso Repousamos nas nossas gavetas Mamamos nas mesmas tetas Desejos em fluxo profuso Já me fizeram um pedestal E cheguei a sentir-me mal Quando me quiseram descer As pálpebras ficam abertas Erradas passam a certas E deixas de te debater Tudo queremos à farta Vamos até à espargata Dum pé em todos os caminhos Sem a córnea nublada Atenção mais aguçada Preferimo-nos sozinhos Somos nós contra ideais Matamos as mulheres fatais E enterramos os heróis Os despojos abandonamos Vestidos de nudez avançamos Somos apenas faróis Já não somos tudo para todos Desviamo-nos dos engodos Não agradamos os demais Dá-se uma revolução E chegamos à conclusão: Que se fodam os pedestais. Fernando Miguel Santos