A Mais Breve História da Rússia, de José Milhazes

Segundo a nota biográfica que acompanha o livro, José Milhazes emigrou para a União Soviética em 1977, vindo a licenciar-se em História da Rússia na Universidade Lomonossov. O seu doutoramento, em 2008, versa a “influenciadas ideias liberais espanholas e portuguesas na Rússia”. Em 2013 foi distinguido com a Ordem do Mérito da República Portuguesa.

A leitura do seu livro A Mais Breve História da Rússia – Dos Eslavos a Putin, já citado por mim no texto “A cultura tem origem, não tem bandeira”, é um relato das imensas mudanças daquela região do globo. Do Rus, a origem, até à actual Federação da Rússia, passando pelo Império Russo e pela União Soviética, a História demonstra que a convivência dos povos que habitam o imenso território foi tudo menos estável. Conquistas, golpes de estado, “limpezas étnicas”, exílios, guerras que se perpetuam. Consequências de uma ambição imperialista que foi criando conflitos e facturas que, apesar de tudo, posicionaram a Rússia como potência mundial em vários momentos, incluindo o actual.

A forma resumida, clara e esclarecedora como os factos são apresentados fez-me lembrar História Concisa de Portugal, de José Hermano Saraiva, lido há muitos anos. A sensação foi semelhante: uma acrescida compreensão, acompanhada de um certo atordoamento induzido pelas incessantes reviravoltas.

A citação que dá início ao livro é uma das melhores formas de resumir a multiplicidade de rumos que o país foi tomando:

Não se pode com a mente a Rússia alcançar,

Nem dela com régua uma ideia fazer:

Porque não tem no mundo par –

Na Rússia apenas se pode crer.

Fiódor Ivánovitch Tiùtchev, poeta russo (1803-1873)
José Milhazes. Foto: Bertrand

O teor histórico e político do livro não o impedem de ser uma leitura agradável, pelo contrário. A título de curiosidade, existem várias passagens sobre personalidades portuguesas, como Luísa Todi, cantora de ópera de Setúbal, que cantou para Catarina II. Sobre a imperatriz e a sua famosa libido, o livro inclui um poema de Bocage, com o qual termino este texto, aproveitando a mestria do poeta para desassombrar estes assuntos:

Essa da Rússia imperatriz famosa,

Que inda há pouco morreu (diz a Gazeta)

Entre mil porras expirou vaidosa:

Todas no mundo dão a sua greta:

Não fiques pois, ó Nize, duvidosa

Que isso de virgo e honra é tudo peta.

Bocage, poeta português (1765-1805)
Author: Fernando Miguel Santos