A transgressão de Giulia Belet (🇵🇹 PT)

Giulia Belet por Charles Mouron

É noite. Na cave da Usine à Gaz, a questão que nos é apresentada parece mais profunda tendo em conta o país (e, diria, até a cidade) em que acontece. Na Suíça, a organização e o civismo são orgulho nacional. Em Nyon, atravessa-se na passadeira, cumprimenta-se os desconhecidos e agradece-se ao motorista do autocarro. Então, pergunta-nos provocadoramente a actriz Giulia Belet, onde cabe a desobediência? Quando se torna vital transgredir? De que forma podemos elevar-nos contra a autoridade inerte e morna?

Partindo do texto que criou no âmbito do Récits du Futur, residência artística de pesquisa e escrita, Giulia desafiou o público do far° festival et fabrique des arts vivants Nyon a criar comunidade, a defender e amar o vivo, a escolher o grito revolucionário para acordar os governos surdos. 

Perante uma plateia repleta, Giulia foi-nos revelando a sua vulnerabilidade e a sua posição política e, talvez mais importante, os factos alarmantes da urgência climática que a vão rodeando de dúvidas ansiosas. Pelo meio, fazendo uso do humor que parece ser-lhe natural, apresentou-nos algumas formas de combate, luta essa que precisa, como disse, « ser lubrificada Â». Só assim se multiplicam as iniciativas, para que pareça fácil, para que se faça sentir aos que não participam que, de facto, «já estão a fazer o caminho Â». 

Les Aînées pour le Climat 

O primeiro acto transgressivo da vida de Giulia, segundo a própria, foi rebelar-se contra a autoridade dos rapazes que não a deixavam jogar consola. Roubou-lhes os comandos. Foi este o « pecado Â» que confessou, diante de nós, ao « padre Â» que, vindo do público, desempenhou o papel do clérigo a quem teve de se confessar em criança, antes da comunhão. 

A interação com o público promovida por Giulia apoiou-se em dois princípios: tornar o tema mais próximo dos presentes e trazer até à experiência de representação um sentimento de participação por interposta pessoa que pudesse, de alguma forma, penetrar eficazmente e provocar uma acção que transformasse a participação teatral em participação cívica. Para coroar as boas intenções, o riso envolvia o público num denominador comum, demonstrando o quão afiliativo o humor pode ser.

Foi também dessa forma que Giulia convidou algumas mulheres da assistência a representar Les Aînées pour le Climat, um grupo de mulheres idosas que fundou uma associação para exigir que a Suíça seja mais incisiva nas medidas climáticas. Para isso, foram de processo em processo, numa maratona burocrática e judicial levada até ao Tribunal Europeu dos Direitos Humanos (TEDH) que lhes deu razão em 2024. Isto porque, referem, « a política climática suíça é claramente insuficiente para atingir o objetivo de limitar o aquecimento global a menos de 1,5 graus. Se todos agissem como a Suíça age atualmente, o aquecimento global poderia atingir os 3 graus até 2100 Â»   

Tivemos a oportunidade de sentir as dificuldades destas mulheres em encontrar terreno fértil para as suas queixas e a morosidade da iniciativa. Uma voz off guiava-nos pelas reuniões incessantes que decorreram naqueles oito lentos anos. Desta feita, foi a ironia que agudizou a sensação de impotência que chegou até nós, acentuando a sensação de vitória quando se revelou o veredicto do TEDH.

É aqui que Giulia nos instiga a ir mais longe, conduz-nos até outras lutas, convida-nos a imaginar a flotilha que partiu para Gaza, conta-nos as iniciativas simbólicas em que participou, questiona-se connosco sobre as formas de combate,  a intensidade de umas perante a ligeireza de outras. Serão todas igualmente válidas? Serão todas necessárias? Caberá a cada um responder.

Ainda (e sempre) o humor

Quando o artista se expõe ao público de forma aberta e interactiva ganha quase tanto quanto perde. Ganha proximidade e perde distanciamento o que, parecendo um pleonasmo, é na verdade bem diferente. A proximidade pode ser instaurada pela quebra da « quarta parede Â», a que separa o actor dos espectadores, mas o risco de o fazer com as nossas convicções reais é a confrontação.

No final da apresentação de Giulia Belet, uma das presentes decidiu confrontá-la com a questão do humor. Afirmou repetidamente que não tinha apreciado o facto de termos rido das mulheres que tomaram aquela iniciativa, que gozar com elas não era ajudar à causa, que o assunto deveria ser tratado com mais seriedade. Não tivessem os presentes gritado serem maioritariamente de esquerda, em resposta a Giulia numa dinâmica que serviu de warm-up, e ter-me-ia imaginando num congresso conservador. 

Este é, até, um dos erros que as esquerdas (sim, há várias, e, por entre as semelhanças, são ideologicamente diferentes) cometem: o de cristalizarem as suas convicções rodeando-as de uma aura divina, endeusando o argumento como se fosse inexpugnável e absoluto. Entre isto e a interdição a rir de deus sustentada por várias direitas há pouca diferença: só muda o deus.

A divergência de ideias, que era mais uma intolerância ao riso do que uma verdadeira dissidência, foi resolvida com outra intervenção do público. 

Começou, então, a conversa prevista entre Giulia Belet e Sarah Koller, mediada por Nathalie Garbely. A noção de urgência climática foi reiterada e um convite foi endereçado aos presentes: a participação, dia 19 de Setembro, em Genebra e Lausanne, na manifestação « Pas d’étés a 50 degrés! Â». Koller, do Competence Center in Sustainability, da Universidade de Lausanne, cuja tese de doutoramento versa os paradigmas socio-culturais da sustentabilidade, foi mais longe e propôs o pedido de demissão de Albert Rösti, Conselheiro Federal ligado ao ambiente.

Não serão raras as pessoas que, como aquela senhora da assistência, considerem que o humor não tem lugar numa conversa tão séria. A nossa época fez renascer uma certa tentativa de subjugação da literariedade à literalidade. Já que a conversa partiu de um texto resultante de uma residência de escrita, socorramo-nos dos Estudos Literários. 

Durante muito tempo, a Estética estava irremediavelmente ligada à Ética e à Moral. Platão deixou-nos esta herança que se perpetuou e que continuou a ser cara aos movimentos que têm na moral a sua forma basilar de poder. No entanto, a autonomia de um texto e da sua ideia subjacente ficavam postas em causa. O mundo inacessível das ideias e o ideal de aproximação a este inalcançável céu, não deixavam lugar a nada que não fosse Belo, Verdadeiro e Bom.

Foi o seu discípulo Aristóteles que revolucionou esta noção apresentando-nos a ficção como sendo do domínio legítimo do verosímil. Agora, não era preciso que tivesse acontecido. O texto já não precisava de ser sobre o que foi e podia ser sobre o que poderia ter sido. Abria-se a porta do possível e o que era potencial ganhava espaço pelo meio das trepadeiras da realidade. 

Hoje, constata-se que algum do público leitor prefere a não-ficção. A razão continua a ser platónica. É-o também quando se vendem livros e filmes « baseados em factos verídicos Â». Continuamos a viver num mundo que não consegue alargar-se à universalidade do verosímil, aceitando-o como parte da verdadeira totalidade do que é viver, enquanto alguns se vergam perante ficções nefastas, como teorias de conspiração. Há aqui uma ironia nesta nova forma de platonismo que aceita como verdade uma mentira, mas recusa o verosímil por não ter acontecido.

Foi através da obra de Rabelais que Mikhail Bakhtin falou do Carnavalesco como forma de subversão da ordem. O humor e o caos. A válvula de escape do único animal capaz de falar, capaz de rir e capaz de produzir sons que produzem o riso noutro espécimen da sua espécie. O Carnaval serve exactamente para isso: expurgar o cansaço do cumprimento das regras. No entanto, por outro lado, serve de intervalo à autoridade, reforçando-a. Define-se um tempo de liberdade que está contado (o que o torna, por si só, menos livre) e controlado por quem detém o poder. De alguma forma, Giulia fez isso connosco. A espaços fazia-nos rir para nos ir dando pequenas estocadas que acordassem. Esse desentorpecimento era tão útil através do riso como da afirmação de factos inquietantes e exige ousadia e coragem. 

Nietzche, em Assim Falou Zaratustra, diz: « Aprendei então a rir indo além de vós próprios! Corações ao alto, ó bons dançarinos, ao alto! Mais alto! E não me esqueçais também o bom riso! Esta coroa do que ri, esta coroa-rosário: a vós irmãos, arremesso esta coroa! O riso santificou-a; ó homens superiores, aprendei — a rir! Â».

E ainda:

« Quem sobe às mais altas montanhas ri-se de todas as tragédias do teatro e da vida. Corajosos, despreocupados, trocistas — assim nos quer a sabedoria: ela é mulher e só ama guerreiros. (…) A vida é difícil de suportar: mas então não vos ponhais com tantas delicadezas! Somos todos belos burros e burras de carga. (…) Eu só acreditaria num deus que soubesse dançar. E, quando vi o meu demónio, achei-o sério, ponderado, profundo, solene: era o espírito da gravidade — é devido a ele que todas as coisas caem. Não é pela ira, mas pelo riso que se mata. Eia, vamos matar o espírito da gravidade! Â»

O mundo é feito também do absurdo. A relação entre o mundo e o absurdo é literariamente muito produtiva e a burocracia é um dos alvos que acentua essa conexão. Kant, na Crítica da Faculdade do Juízo, escreveu que « em tudo o que pode suscitar um riso vivo e abalador tem de haver algo de absurdo (em que portanto o entendimento não pode em si encontrar nenhum comprazimento. Â»

Descreve, ainda, o riso como o resultado de uma « tensa expectativa Â» que se transforma em nada. 

Este lado ridículo da luta foi perfeitamente demonstrado por Giulia. O combate faz-se nas reuniões incessantes, na burocracia, nos processos infindáveis, para redundar num veredicto com elogiável valor moral, mas poder coercivo mínimo e que continua à espera da acção governamental para ser consequente.

Rir diminui o valor destas mulheres e da sua determinação? Kant responde-nos dizendo que podemos « conceder a Epicuro que todo o deleite, mesmo que seja ocasionado por conceitos que despertam ideias estéticas, é sensação animal, isto é corporal, sem com isso prejudicar minimamente o sentimento espiritual de respeito por ideias morais (…) Â».

A verdadeira transgressão

Há um momento em que as regras deixam de fazer sentido. As crianças sabem-no. Testam-nas incessantemente porque trazem na herança genética algo de progressista que os incita a confrontar-se com a autoridade. 

Giulia Belet, com Transgresser, permitiu-se à aproximação do público e, com isso, envolveu-o com a urgência da acção. Revelou o seu e o nosso ridículo, assim como a força e a fragilidade de uma luta que é amiúde diminuída pela inércia de quem teria de a ouvir e adoptar. Fê-lo de maneira quase sub-reptícia, fazendo-nos rir enquanto ruminávamos ideias feitas de fogo. 

Transgrediu, como se pode ver, várias regras. Fez-nos duvidar de outras.

Mas talvez a maior transgressão de Giulia tenha sido pedir desculpa por ter construído o seu texto desta forma.

Author: Fernando Miguel Santos

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